TERRA FRIA:


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Original: North Country
País: EUA
Direção: Niki Caro
Elenco: Charlize Theron, Elle Peterson, Thomas Curtis, Frances McDormand, Sean Bean, Woody Harrelson, Jeremy Renner e Richard Jenkins.
Duração: 123 min.
Estréia: 24/02/2006
Ano: 2005


Terra fria... e careta


Autor: Laura Cànepa

É difícil assistir ao filme “Terra Fria” sem uma ponta de indignação. Mas esta nada tem a ver com a violenta história vivida no mundo real pela primeira mulher a processar uma empresa norte-americana por conivência com o assédio sexual. Essa mulher, que no filme é chamada de Josey Aimes (Charlize Theron), certamente teve toda a razão em seu pleito, tanto que o venceu, e sua história tinha mesmo tudo para virar filme. A indignação a que me refiro é provocada pela maneira como a sua história é contada, que nos leva à quase exasperação pelo esquematismo, pelo sem-número de clichês e, acima de tudo, pela caretice.

Afinal, convenhamos: uma mulher maltratada por mais de 200 homens em uma mina de carvão, assediada permanentemente e ofendida pelos chefes em todas as suas denúncias, não precisa ter uma conduta sexual tradicional para que lhe demos razão. Mas o filme inteiro parece desesperado para nos provar que a mãe de dois filhos de pais diferentes é uma pessoa decente – como se duvidássemos disso!

É normal que a conduta de Josey seja questionada no tribunal por advogados dispostos a tudo, a gente sabe que isso vai acontecer, e quer ver como a heroína vai sair do embaraço. Também é natural que estejamos curiosos por conhecer melhor a sua vida. Mas a insistência e a preocupação do roteiro em justificar suas supostas “escorregadas” sexuais é desnecessária e se dirige a uma audiência que ainda precisa de provas de bom comportamento para dar razão a quem tem razão. Ora, me poupem!

Mas a caretice não pára por aí. A diretora neo-zelandeza Nick Caro dirige o filme com mão pesada, seguindo à risca a cartilha do melodrama convencional. E o roteiro ainda coloca a personagem em situações que já vimos milhares de vezes: enfrentando a resistência das colegas (sempre mais burras ou mais feias do que ela), brigando com o pai machista (que a condena por ter engravidado na adolescência), tentando dialogar com o filho revoltado (que nunca soube quem era ser verdadeiro pai)... O filme começa e já sabemos exatamente como vai terminar: nenhuma surpresa, nem no roteiro e nem na direção.

Quando chegamos às cenas do tribunal, então, os clichês são tantos que beiram a comédia: tem gente mudando testemunho do meio da platéia, advogada da empresa torcendo pela moça acusadora, molestador de adolescentes que não é preso e um juiz que não parece nem aí para essa bagunça toda!

“Terra Fria” cresce – e muito – em algumas cenas por causa do elenco maravilhoso. Não poderia ser de outra forma com atores como Sissy Spacek, Frances McDormand, Woody Harrelson e, sobretudo, Sean Bean (o príncipe Boromir de “Senhor dos Anéis”), que consegue dar uma carga de humanidade e coerência a um personagem que poderia ser simplesmente o esteriótipo de um homem frustrado e certinho. Charlize Theron também segura corretamente a aura por vezes enjoativa de “dignidade” da protagonista. Outro destaque é a nova bonitona do pedaço, Michelle Monaghan, que interpreta uma jovem de 19 anos com a mesma desenvoltura que teve para convencer como uma mulher de 34 no divertido “Beijos e Tiros” no ano passado.

Mas, mesmo com esse elenco estrelado e com uma ou outra boa sacada de fotografia e de montagem, não há muita escapatória: o que temos, acima de tudo, é a história de uma mulher que, para ter seu direito atendido, precisa lavar a roupa suja em público com a família e com os colegas. E um filme que acha isso lindo. Deus me livre.
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