CAPOTE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Bennett Miller
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Bruce Greenwood, Bob Balaban, Amy Ryan, Mark Pellegrino e Allie Mickelson.
Duração: 98 min.
Estréia: 24/02/2006
Ano: 2005


"Capote" - sem acreditar nas próprias idéias


Autor: Cid Nader

Alguns filmes americanos já são concebidos com a pretensão e intenção total de serem indicados para concorrer ao Oscar - os norte-americanos crêem piamente que a estatueta dourada distribuída pela Academia é o grande referencial no quesito qualidade superior, como algo mundialmente incontestável e acima de qualquer outro festival "chinfrim" que pretenda se meter a besta; eles acreditam, também, que o soccer (o nosso futebol) é jogo de mulheres, fazer o quê! Vários truques são utilizados, cientificamente, como atalhos - ou caminhos certeiros mesmo -, cujo destino final é a ambicionada premiação. Dentre esses truques vale pinçar como objeto de análise modelos específicos de atuação. Um ator que almeje tal regalia e deferência deve imbuir-se de alguns elementos específicos no momento de compor seu personagem - quando não antes, no momento de decidir se tal personagem tem característica razoavelmente "Oscarizável" -, a saber: mudanças físicas drásticas são muito bem acolhidas pelo pessoal de Hollywood, bem como papéis de seres um degrau acima do que se consideraria o patamar normal para um ser humano comum (heróis, maluquinhos, grandes bandidos...); um sujeito que se transforme, então, da maneira mais próxima possível, num personagem referido, tanto física como espiritualmente, como um decalque forte e extremamente bem copiado, à maneira mais próxima do que separaria o sósia do caricatural - como se o ator estivesse tomado por um espírito meio bêbado ou adrenalizado - então; bingo, é isso aí.

O diretor Bennett Miller acaba por vestir a carapuça dos culpados que buscam serem reconhecidos pela academia a qualquer custo. Bem que ele conduziu seu "Capote" de maneira um tanto diferenciada do usual quando o assunto a ser tratado num filme é a biografia de alguém famoso. Sim, pois invés de desfilar pelo decorrer da trama toda a vida do homenageado - nascimento sofrido, sucesso, queda, reerguimento... -, maneira usualmente utilizada em tais casos, ele, espertamente e de maneira um tanto ousada centrou a narrativa, isto é, utilizou um elemento único, solto, num determinado momento da vida do polêmico jornalista americano. Essa "centralização" da narrativa se foca na obra maior de Truman Capote, o livro "A Sangue Frio", e se desenvolve em torno dos acontecimentos que precederam e acabaram por resultar na famosa obra literário-jornalística.

Bennett consegue criar, por momentos, clima de certa desesperança e desolador, tanto ao retratar - através de imagens - os que sofreram a violência que resultou num dos crimes mais comentados dos Estados Unidos (em outras épocas, logicamente), como aos autores - compondo personagens que participam ativamente do filme - da chacina; que acabaram por ser o principal motivo da investigação e aproximação que levaram Capote à confecção do famoso trabalho; algo que lhe tomou anos de vida e de sanidade.

Mas como disse acima, o diretor veste a carapuça do desejo incontido - jogando fora as grandes possibilidades que chegaram a se insinuar - quando opta por formalização assumida de seu trabalho em cima dos excessos na atuação de Philip Seymour Hoffman (o próprio legendário Capote). Na realidade, consegue-se compreender no decorrer da película que falta coragem a Bennett; que ele aparenta não confiar tanto em seu taco e passa a vez e as possibilidades da glória ao seu companheiro - teoricamente menor quando se fala de cinema - de equipe que, aproveitando a oportunidade, faz um jogo exagerado e um tanto caricato.

Dirão alguns: "mas Truman era assim mesmo, afetadíssimo como uma caricatura gay". E daí? Não seria de esperar de um bom ator a reinvenção, com método, na hora de compor um personagem de características acentuadas? Seria como se fazer uma personificação utilizando apenas os elementos físicos humanos, esquecendo-se que a essência, a índole, a "alma" - menos ou nada palpáveis, sim -, são os fatores que determinam, inclusive, a "embalagem", a aparência e os modos. Sobra método e falta substância, portanto e nesse caso, a Philip Seymour Hoffman.

Tivesse o diretor menos ganância de concorrer ao Oscar - a em qualquer categoria que fosse - e mais alma de artista, teria percebido que havia encontrado um bom caminho para seu trabalho e que por ele, somente por ele mesmo, provavelmente estaria concorrendo a algumas das estatuetas tão ambicionadas. Tivesse investido mais nas dúvidas - falta de ética profissional, sensacionalismo - que sobraram pela maneira utilizada por Truman Capote para conseguir concluir o tão famoso e mitológico livro, por exemplo, talvez conseguisse atingir, da mesma maneira, os velhinhos da Academia, que afinal de contas, devem entender um pouco que seja de cinema.
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