SOBRE PAIS E FILHOS:


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Original: Winter Solstice
País: EUA
Direção: Josh Sternfeld
Elenco: Anthony Lapaglia, Aaron Stanford, Mark Webber e Allison Janney.
Duração: 90 min.
Estréia: 17/02/2006
Ano: 2004


"Sobre Pais e Filhos" - cool


Autor: Cid Nader

Começar um texto dizendo que um filme tem a chancela "Festival de Sundance" como referencial preferencial pode significar falta de imaginação de quem o escreve. Está se tornando cada vez mais comum associar filmes eleitos pelo festival do cinema independente a um estilo cada vez mais próprio e fechado, com signos inconfundíveis e muito particulares da cultura americana - apesar de ser aberto a concorrentes e/ou privilegiados do mundo inteiro. A temática, invariavelmente, percorre os dilemas, angústias, busca de sentido e por vezes - raramente - situações de felicidade, pelas quais passam famílias americanas com filhos adolescentes, em suas casas sem grades e com jardins, situadas em bucólicas cidades interioranas de aparência pacata e tranqüila, além de trilha sonora com músicas que falam, ou dos problemas que infestam corações e mentes dos imberbes ou que são dedilhadas suavemente num violão, com um certo toque nostálgico de temas que referem ao estilo e pacato modo de protesto hippie dos anos 1960 . Essa composição, quando representada na tela, parece gritar "Sundance", como se todo esse estilo supostamente requerido e preferido pelas suas normas não permitisse outro tipo de abordagens e linguagens, como se o simples fato de se fechar obras com alguns dos "pré-requisitos estabelecidos" representassem caminho livre e escancarado.

Coincidentemente, ou não, "Sobre Pais e Filhos", dirigido por Josh Sternfeld, carrega consigo alguns dos estigmas que citei acima. Acontece, porém, que já existe um preconceito que vem sendo manifestado por parte de alguns há algum tempo e que, com o simples manifestar da repetição de elementos das tais fórmulas "pré-estabelecidas", tende a aflorar sistemática e automaticamente, num desatino inconsciente e impensado na maneira de entender essa nova obra que se apresenta em nossas telas. Não é possível evitar toda e qualquer maneira de compreender esse filme por conta de um suposto "não tem nada a dizer" ou "que coisa mais entediante, como são problemáticos!", como cheguei a ouvir.

O diretor com certeza se ampara em fórmulas para concretizar seu trabalho mas não o faz de maneira totalmente automática e implausível. É de se esperar que artistas sigam tendências de escolas onde estão inseridos - sua época e até a situação geográfica se fazem fatores importantes para tal. Ao contar a história de Jim Winters (Anthony LaPaglia) e sua convivência com os dois filhos, Gabe (Aaron Stanford) e Peter (Mark Webber), conta um pouco do modo de vida que vem pautando um dos setores da sociedade americana atual, com suas angústias e incertezas - nos mesmos moldes do que ocorre em quase toda a Terra. Não acelera e não explica tanto quanto desejariam alguns e, justamente aí, ganha pontos a favor, pois ao tratar de uma família que vive o desencanto da perda da mãe/esposa, embrenha-se por terreno, no mínimo, entristecido. Os filhos que ao início aparentam serem garotos normais - o que é ser normal, não? - aos poucos vêem serem revelados outros lados de suas personalidades; algo que é feito num ritmo adequado, sem exacerbar o melodrama, sem sustos ou surtos e sem o pavor das chacinas (truque comumente explorado no cinema americano para criar carga dramática e adrenalizar espectadores à procura de algo a mais).

O filme segue ritmo pacato, ditado pela câmera contida e pela música - que se repete, talvez um tanto a mais -, com alternância de espaços amplos a tomadas intimistas. Normalmente quando se filma nestas pequenas cidades norte-americanas é interessante se explorar as possibilidades de tomadas abertas, pois fica óbvia a importância do ambiente externo na formação da personalidade e da índole "interiorana" - pelo bem e pelo mal - dos personagens. À moda do seriado de TV "Anos Incríveis" - modelo óbvio para uma penca destes filmes - os personagens se apresentam aos poucos e de maneira decisiva, sem atropelos ou arroubos interpretativos: surge uma nova moradora que poderá despertar o interesse do pai à frente; e existe a "cool" namorada de Gabe, que flutua por toda a história e talvez seja o personagem mais interessante da trama.

Com certeza tem a chancela Sundance - assumo aí a minha falta de imaginação. Mas, se não é um épico a ficar marcado a ferro e fogo na história do cinema, não é, também, um filme a ser desprezado.
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