ROMA, UM NOME DE MULHER:


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Original: Roma
País: Argentina
Direção: Adolfo Aristarain
Elenco: Juan Diego Botto, Susú Pecoraro, José Sacristán.
Duração: 155 min.
Estréia: 17/02/2006
Ano: 2004


"Roma, um Nome de Mulher" - os piores vícios


Autor: Cid Nader

Existe um jargão que se pretende unificador mas que acaba por revelar-se falso e equivocado em sua tentativa reducionista de caracterizar todo um continente com os mesmos ideais, princípios, e anseios, como se fosse possível apreender as composições biológicas de milhões de seres sobre uma mesma plaqueta e sob uma única lente de microscópio. Tal jargão, que diz correr o mesmo sangue pelas veias da América Latina, surgiu - ou tomou grandeza - nos momentos mais complicados pelos quais passaram, quase que simultaneamente, os países das Américas Central e do Sul, ao se verem tomados e dominados por governos militares, frutos de golpes que tiveram como força motriz interesses nada mestiços.

Entender, por exemplo, uma Argentina, como nação de formação basicamente européia recente, imaginando com olhar estrangeiro ser ela toda um espelho da capital cosmopolita Buenos Aires é não saber da forte miscigenação branca-indígena que constitui toda a sua região norte, nunca ter ouvido falar do orgulho gaúcho dos pampas ou esquecer que, bem ao sul, quase no Pólo, nativos diferentes de todo o restante do continente fizeram com que os brancos invasores denominassem tal região por Terra do Fogo, por conta das incontáveis fogueiras que dominavam a paisagem inóspita num primeiro e surpreendido contato. De maneira totalmente diversa, portanto, os outros países tiveram suas próprias constituições genealógicas, com os negros que se misturaram aos incas no Peru e Colômbia, uma preservação incaica mais pura no Equador, a europeização da Venezuela, o espanhol e o inglês também fortemente mesclado ao inca no Chile, para não falar das misturas aos Aztecas no continente central e por aí afora.

Vamos ao ponto: culturalmente, também, não é possível entender cada país - na interação com os outros ou internamente - com o domínio de escolas próprias únicas e seria heresia falar do tal sangue latino unindo maneiras de pensar e executar a arte de maneira singular a todos. No caso aqui, o do filme "Roma, Um Nome de Mulher", dirigido por Adolfo Aristarain, cai por terra a mais recente "verdade" de que o novo cinema argentino vem sendo realizado com um reconfortante e acalentador modo de idéias mil, pouca grana, muita criatividade e qualidade, quase que a criar uma escola nova calcada na diversidade etnológica do país - o mesmo sangue latino, sob a mesma pátria mas visto e retratado em suas peculiaridades. Pensando um pouco melhor, talvez o que Aristarain esteja tentado com esse seu novo trabalho seja justamente dar força e verdade ao jargão, já que seu filme tem toda uma alma folhitenesca como eixo central condutor - à melhor/pior maneira da escola mexicana ou venezuelana - e um propósito final de denúncia política, mais especificamente contra a ditadura militar, ressuscitando fantasma típico contra o qual lutam eternamente os setores da arte das terras do Prata. É óbvio que estou tentando levar na brincadeira essa falta de identidade do filme.

"Roma, Um Nome de Mulher" não tem coragem de se assumir novelão e isso fica evidente pela recusa do diretor em formatá-lo linearmente, criando então um truque bobinho no qual conduz a trama como fruto de um livro a ser escrito por autor que mora na Espanha - Joaquin Gañez - há tempos e que se vê cobrado pelo editor, que exige algo novo, a toque de caixa, pela ausência de trabalho mais rentável já há algum tempo. Para isso lhe é enviado um estudante de jornalismo - Manuel Cueto - que tem a função de transcrever o novo e cobrado trabalho para o computador e de não permitir que o velho escritor se desvie por muito tempo da função, evitando assim gastos maiores no investimento da editora e cumprimento de prazos mais ajustados.
O que acontece de errado com a película é que a premissa adotada não atenua seu tom farsesco e previsível. Desde o início, quando Joaquin Gañez começa a ditar seu livro, fica patente que os fatos relatados tratam de sua própria vida, coisa não tão desprezível caso o diretor não optasse pela tentativa da camuflagem para fazê-lo. Porém, o tom folhetinesco prevalece acima de tudo e as histórias que vem e vão do passado para o presente, da Argentina para a Espanha, começam a ser emolduradas por um excesso de clichês nada dignos do que poderia se esperar de um egresso dessa nova safra do cinema argentino - não é o mesmo sangue e nem as mesmas idéias que correm pelas veias e cabeças do mesmo país, que dirá do mesmo continente.

Há baboseiras do tipo: desaconselhar o rapaz de ler "Em Busca do Tempo Perdido" ou a não conclusão de um amor que está lá, para qualquer um perceber, por receio e omissão de ambas as partes - novela. A obviedade do pai muito acima da média dos seres comuns e seu destino que se consegue antever com poucas situações. O amigo, professor e manifestante de esquerda com seu destino absolutamente já pré-desenhado. "Todos os problemas que parecem enormes, quando falados em voz alta para um rio parecerão ridículos"(?)...

Filmado de maneira correta e sóbria, Aristarain poderia ter se saído melhor se optasse por uma condução linear e assumidamente correta e sóbria. O tom de folhetim à moda antiga permaneceria lá, de qualquer maneira, mas não passaria a impressão de vergonha de assumi-lo.
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