A PANTERA COR-DE-ROSA:


Fonte: [+] [-]
Original: The Pink Panther
País: EUA
Direção: Shawn Levy
Elenco: Steve Martin, Kevin Kline e Beyoncé Knowles
Duração: 93 min.
Estréia: 17/02/2006
Ano: 2005


A Pantera Cor-de-Rosa" - uma homenagem


Autor: Cid Nader

Eis um dos grandes mitos da história do cinema. Estou falando da versão original, que estreou nas telas em 1963, criada por Blake Edwards e que serviria de veículo para uma das grandes estrelas hollywoodianas, à época, David Niven. Acontece, porém, que o genial Peter Sellers resolveu dar o pulo do gato - sem trocadilhos felinos -, aproveitou a oportunidade, criou um inspetor Clouseau impagável, repleto de falhas e nuances e caricato na medida exageradamente certa, transformando seu personagem num mito da sétima arte. Vários filmes se seguiram - por cerca de 10 anos. Um melhor do que outro - diga-se, a bem da verdade, que o primeiro fica bem longe de ser o melhor. Peter Sellers, não fosse a excelência no desempenho de sua arte, quase ficou estigmatizado pela figura um tanto baixinha, outro tanto nariguda, de bigodinho ridiculamente fino e sempre mantido na medida certa. Inspetor policial vindo do interior - um jeca francês - para servir de "laranja" para a esperteza e malandragem parisiense de David Niven, mostrou-se mais esperto - e sortudo, também - do que seria de se imaginar e desejar. Elementos outros foram criados, também, como complementadores de sua imagem: a roupa - um uniforme do tipo dos usados pela "gendermarie" - sempre "impecável", o carro minúsculo e suas manobras malucas de baliza ou o policial que sempre o acompanhava, de origem chinesa, alvo de suas intermináveis tentativas de golpes surpresas de judô - mesmo sendo o judô luta de origem japonesa. Portanto, um personagem que acabou se impondo a tal ponto, criando uma tal aura de "intocabilidade" para si, que passou a atemorizar e exigir um certo respeito na hora de ser caracterizado por algum outro ator - num caso semelhante, guardadas as devidas proporções, ao de Carlitos, de Charles Chaplin.

Steve Martin resolveu topar e enfrentar o desafio. Convidado pelo diretor Shawn Levy - que havia acabado de realizar um outro trabalho com o ator, "Doze é Demais" - recusou, aceitou, pensou, estudou e, finalmente, interpretou o inspetorzinho do interior da França. Na opinião de Levy, Steve seria, nos dias de hoje, o ator mais apropriado na tentativa de "render essa homenagem" ao já clássico personagem, pelo seu desempenho normalmente muito bem estruturado e dividido entre um humor físico e intelectual. Steve recriou em boa parte características do Clouseau de Peter Sellers, mas incrementou toques nitidamente pessoais e recorrentes em sua carreira: o uso de expressões faciais mais expressivas - caretas, para ser mais claro - é um dos bons achados do novo filme mas bastante diferente do comportamento mais contido e facialmente enigmático do original. Steve é mais alto que Sellers, mas seu vigor físico dão graça singular a patetadas que são exploradas visando, justamente, esse diferencial atlético entre os dois. Num momento mais inspirado, o diretor ganha pontos ao explorar esse componente característico de Steve Martin, o de saber arrancar risadas com as deformações que consegue pelos trejeitos da boca, que numa aula de inglês pronuncia a palavra hamburguer de tantas e tão variadas maneiras que não imagino ter sobrado alguma outra para quem queira tentar.

O chinês do filme original é substituído aqui por Jean Reno, que com sua figura taciturna, grande e de olhar entristecido compõe um divertidamente contido Ponton. Inspetor Dreyfus, representado nessa nova versão por Kevin Kline, perde em classe elegância para David Niven e é o personagem que fica devendo mais aos primeiros - e veja que estamos colocando no rol de comparações o mitológico Clouseau de Sellers e o de Steve Martin!

Só que o filme se esgota um pouco na primeira metade - em termos de conseguir arrancar risos de maneira mais natural - e ressente-se de um algo mais para poder ser comparado com um pouco mais de proximidade. Não por falta dos esforços do novo e espigado Clouseau, mas talvez pela opção errada do diretor no momento de montar seu filme, onde deveria ter optado por espalhar melhor as gags por toda a película; de maneira mais uniforme e menos acumulada. Um filme, particularmente uma comédia, necessita de conhecimento perfeito do timing por conta de seu realizador, quero dizer, é necessário que o autor tenha em mente que fazer rir, ao espectador que vai em busca disso, é um detalhe que precisa ser mais bem distribuído, com o risco de os elementos químicos que fazem tal função ser ativada no organismo voltarem aos patamares de sisuda normalidade, por ostracismo, e se recusarem - ao menos facilmente - a comparecer novamente quando requisitados para tal.

As figuras femininas são um caso particular e de muito boa composição: a frágil e delicada secretária, Nicole, interpretada pela bela Emily Mortimer e a cantora Xania, caracterizada pela também cantora, Beyoncé Knowles, sedutora, carnal e de sorriso infantil e angelical.
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