JOHNNY & JUNE:


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Original: Walk the Line
País: EUA
Direção: James Mangold
Elenco: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Ginnifer Goodwin.
Duração: 136 min.
Estréia: 10/02/2006
Ano: 2005


"Johnny & June" - o culpado é o Elvis


Autor: Cid Nader

Sexo, droga e rock and roll é o mote que bradam os norte-americanos como tentativa de reafirmação de uma propalada e mundialmente imitada identidade nacional rebelde, que, na realidade, normalmente, tende mais para um comportamento padrão careta - família, calmaria e reforçada convicção religiosa -; no bom ou no mal sentido, varia conforme o gosto do freguês. Esse tal comportamento comum padrão, tem como uma de suas maneiras de demonstração de satisfação e regozijo o acompanhar da superação por parte do homem "fraco", que cai em desgraça, vai ao fundo do mar, consegue uma última chance de respiro e, reabastecido com a nova possibilidade, agarra-se à primeira tábua que vê passar à sua frente, para daí reiniciar, mais forte e puro, tomando novos e mais delineados rumos que desembocam, invariavelmente, numa bucólica casa própria, apropriadíssima para a criação de uma comportada família e que será a sua última morada terrena.

O americano comum gosta mesmo é de finais felizes e valoriza-os muito, principalmente se precedidos de toda uma gama de infortúnios e tentativas de superação. Os diretores de cinema sabem disso e apostam alto na confecção de obras com essa característica. A cinematografia do país central da América do Norte é recheada de filmes de onde, de maneira facilitadora e despudorada, alguns diretores se apropriam das vidas de ícones, angariando para si mesmos todos os louros e vivas que no imaginário dos fãs seriam dedicados aos ídolos sofridos. Sim, porque o americano comum não gosta somente de histórias de superação; gosta de se identificar com o artista maior, distante fisicamente e interno na adoração.

Portanto, como não imaginar que um filme como "Johnny&June" seja cartada certeira, a despeito das possíveis virtudes ou defeitos. O diretor James Mangold, já sabedor das grandes possibilidades de sucesso quando optou por esse projeto, dedicou-se a ele por mais tempo do que se poderia supor - cerca de sete anos -, fato que implicou resultado com características um pouco acima do que comumente seria de se esperar. Apostou em Joaquim Phoenix para caracterizar o legendário Johnny Cash - numa composição um tanto exata e outro tanto caricaturizada demais. Apostou, também, em Reese Witherspoon para o papel da amada do cantor que se vestia de preto, June Carter, com um resultado bem mais favorável e digno de elogios - colocou emoção, "espivetação", desconcertamento, indecisão e paixão sofrida na medida certa.

O filme, afora seu início no aguardo do famoso show realizado na penitenciária de Folsom (1968), é tocado de maneira linear e cronológica, uma característica comum quando se trata de trabalho com tal perfil. No começo incomoda tal falta de ousadia na construção, mas com o passar dos minutos esquecemos e tal falta de ousadia não se caracteriza como fato negativo - ou por acomodação nossa ou pela honestidade do diretor que vai aos poucos "dizendo" escancaradamente: "vejam bem, não estou aqui para ousar e sim para contar uma história de amor e - adivinhem(!) - superação". A emoção que a espera e a recusa da aceitação de Johnny por June proporciona ao espectador, afora constituir-se pequeno truque cinematográfico, é outro ponto forte do filme: existe o belo momento em que J. Cash - totalmente embriagado de drogas entra em atrito com um trator, sendo abandonado pelo pai matuto e pela mãe sofredora - recebe pela primeira vez o apoio de sua amada, empurrada e instigada pela família dela, muito mais compreensiva que a sua, talvez por ter sangue artístico correndo nas veias.

Mas, o filme falha, também - e feio -, em vários momentos. Justamente pelo fato de ser realizado seguindo os ditos de uma espécie de cartilha do gênero. Mostra esquematicamente o início pobre, com um irmão que é o mais querido por ser realmente "muito melhor", a descoberta das qualidades de J. Cash por uma gravadora pequena, assim, logo na primeira e achada chance. Continua com o surgimento do sucesso, o relacionamento com os grandes e novos ídolos que surgiam ao mesmo tempo - Elvis, Jerry Lee Lewis - que acabam por ser, inclusive, os responsáveis pela iniciação no mundo das drogas; a queda, a volta e promessa de recuperação, a queda novamente e, quando já nada se espera - fala sério -, a redenção, a superação, o rumo para o bom caminho, para o final feliz. Certo, se a vida do mito Johnny Cash foi assim mesmo, qual o problema em contá-la seguindo a lógica de seus fatos? O problema é o teor de conto manjado, de história certeira para agradar um certo tipo de público, que não exige, se satisfaz se o esquema for cumprido e se o bem vencer o mal. Regozija-se se o ser caído conseguir se superar no final, ao melhor estilo "fibra e raça americana".

Para sorte nossa, o diretor também tramou boas jogadas e conseguiu, ao menos em alguns momentos, fazer um jogo com um pouco de individualidade e ginga, fugindo um pouco do esquema rígido adorado pela maior parte da torcida. Poderíamos encarar o resultado final como um empate.
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