ORGULHO E PRECONCEITO:


Fonte: [+] [-]
Original: Pride and Prejudice
País: EUA
Direção: Joe Wright
Elenco: Keira Knightley, Matthew MacFadyen, Brenda Blethyn
Duração: 127 min.
Estréia: 10/02/2006
Ano: 2005


"Orgulho e Preconceito" - ousadia contida.


Autor: Cid Nader

Jane Austin com certeza é o sinônimo mais conhecido e usado como referência pelos realizadores da sétima arte quando o assunto é a Inglaterra do século XIX. Apesar de ter morrido ainda no início do século, suas novelas retratam a Ilha - uma típica potência européia de então - dos modismos, das frivolidades e das artes, dos ricos e poderosos, sem deixar de evidenciar os mais pobres ou simples camponeses como o outro lado, sempre disposto à ascensão, mas misturando aí personalidades calculistas em busca de um bom partido com outras letradas e orgulhosas, apesar da humilde origem. Ouvir seu nome já me desperta, automaticamente, um manancial de imagens - resguardadas sei lá como em algum setor muito inóspito de meus conhecimentos ou lembranças - que se materializam em minhas retinas sob as formas de campos vastos sob céus nublados e chuvosos, pianos e danças em grupo semelhantes as de acasalamento - a intenção por trás delas é essa mesma, só que com a perspectiva de um casamento no meio -, vestidos esvoaçantes, castelos recheados de obras de arte, residências mais simples de onde despontam moças de moral superior e pobreza monástica.

Tal pacote, bem à moda do fenômeno das novelas televisivas atuais, é apropriadíssimo para uma parcela considerável do público que busca no cinema o encanto e o lado fabulesco da vida; óbvia intenção de fuga da dura realidade do dia-a-dia, que acrescida das rendas e perucas de então se faz suficiente para atenuar os malefícios causados pela correria e feiúra destes nossos bicudos tempos.

Comentando com um amigo não entender a razão de se fazer um filme destes nos dias de hoje, obtive como resposta um "por que não?", o que obviamente jogou minha cara no chão com cara de censor e de quem não acredita nos caminhos infinitos a serem explorados pela arte num geral - logicamente o meu questionamento não tinha teor excludente, mas me senti com a carapuça dos chatos de plantão que emitem opiniões abalisadamente superiores e pedantes, num caminhar sempre à contra-mão da opinião popular, seja ela qual for.

No caso de "Orgulho e Preconceito" é necessário ressaltar que, aparentemente, seu próprio diretor, Joe Wright - talvez incomodado com a possibilidade de uma compreensão única por parte da crítica, no sentido de que poderia estar ele se utilizando de material naturalmente agregador de audiência, pelos motivos que já antecipei acima - resolveu construí-lo de maneira um tanto diferente do que seria de esperar. Fez seu filme com um ritmo, digamos assim, um tanto histérico, montado com cortes inesperados e tomadas que criam um certo clima de "atropelo". As seqüências dos bailes - e são muitas - não ficam nada a dever em ferveção e azaração às festas promovodas pela garotada, hoje em dia. O clima de tensão sexual que bota as garotas da história - especialmente as gêmeas de 15 aninhos - numa procura constante dos homens ideais rivaliza com o "ficar" atual. Certo que o objetivo principal que permeia a maior parte das iniciativas tem como objetivo final um bom e rentável casamento - afinal estamos no século XIX - mas a maneira com a qual o diretor encaminha parte dessas iniciativas, destoa do padrão do texto original.

Boa parte dos personagens age de maneira histérica. A mãe, Brenda Blethyn - numa incansável repetição de seu tipo único, rústico e de falar estridentemente suburbano da Londres atual, que ganhou aplausos e louvações dos incautos em "Segredos e Mentiras", fato que criou discussões e teses a respeito do "método" Mike Leigh de atuação - e as filhas gêmeas, por exemplo, irritam com a insistente maneira "monocórdica-gritante" com a qual conduzem seus personagens por toda a trama. Já a filha do casal Bennet - cujo pai é o contido e mais crível Donald Sutherland -, Elizabeth (Keira Knightley), bonita e de personalidade interessante, coloca o filme num trilho mais comportado, mais à maneira datada que obra exige. Seu par - nas desavenças, repulsa e atração - Fitzwilliam Darcy (Matthew MacFadyen), também é mais bem composto com seu jeito esquisitão. Há um primo baixinho de nome Collins, que é tratado da maneira mais politicamente incorreta possível; resta a dúvida se de maneira pensada para compor o lado mais "anormal" da película, ou se resultado de uma escorregadela impensada do diretor.

E por aí vai. Joe Wright "ameaça" com momentos de desavença e incompatibilidade ao proposto da obra original mas, como não é totalmente louco nem nada, investe no lado mais comportado e coerente. Recheia o filme de imagens belas, elaboradas, e dispensáveis - pode ser uma chuva que forma o pano de fundo para o trabalho dos camponeses (em câmera lenta, obviamente), ou o cavalo que corre em meio ao matagal durante a leitura de uma carta, ou ainda um momento com Elizabeth estrategicamente colocada à beira de um precipício (aliás, cena que exigiu uma parafernália que incluiu cabos de aço para poder ser concretizada).

Os momentos em que Wright isola Elizabeth e Darcy do mundo são os grandes achados do filme. Isola-os nas conversas a dois mas também com um belo truque de montagem numa cena de baile, além do momento em que se encontram frente-a-frente, ela em carne e osso e ele retratado num busto de mármore.

Cá entre nós: imagino sim a razão de tal tipo de obra literária ainda ser filmada nos dias de hoje, só que gostaria que parte do público se manifestasse - à sua maneira sincera, diferentemente do modo preconceituoso da crítica - exigindo que a ousadia comparecesse por mais tempo na tela, no momento da obra finda e exibida.
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