MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA:


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Original: Memoirs Of a Geisha
País: EUA
Direção: Rob Marshall
Elenco: Ziyi Zhang, Ken Watanabe, Kôji Yakusho, Michelle Yeoh, Kaori Momoi, Youki Kudoh, Gong Li eKenneth Tsang.
Duração: 145 min
Estréia: 03/02/2006
Ano: 2005


Mastigação Plena


Autor: Marcelo Miranda

Impossível avaliar criticamente “Memórias de uma Gueixa” sem considerar seu aspecto mais gritante de produção: é um filme americano falado em inglês sobre a cultura japonesa das gueixas, cujo trio central de personagens é formado por atrizes chinesas e em que o Japão dos anos 20 aos 40 foi todo recriado num estúdio de Los Angeles. Verdadeira salada étnico-cultural que não pode ser ignorada, já que cada escolha do diretor Rob Marshall (sob produção de Steven Spielberg) tem razão de ser e vai de encontro à tal salada.

A começar, claro, pela própria definição do elenco principal: Zhang Ziyi, Michelle Yeoh e Gong Li são figuras já eternizadas no imaginário iconográfico do cinema oriental. Ziyi é a mais recente delas e vem traçando caminho de enorme sucesso, tornando-se carinha conhecida no Ocidente com “O Tigre e o Dragão” e “O Clã das Adagas Voadoras”; Yeoh vem de filmes de ação e aventura, o que lhe ajudou a ganhar um papel em “007 – O Amanhã Nunca Morre” em 1997 e de também entregar seu charme e carisma em “O Tigre e o Dragão”; e Li é a mais conceituada das três, musa de Zhang Yimou desde o começo (sendo “Lanternas Vermelhas” o filme mais conhecido dessa fase) e atriz de renome mundial. Chamar todas elas para uma superprodução norte-americana é garantir um mínimo de visibilidade e bilheteria. Serem de nacionalidade distinta a das personagens que interpretam passa a ser mero detalhe.

Para não sermos implicantes e injustos com Marshall, pensemos em seu novo trabalho tentando deixar de lado a discussão do elenco. Ainda assim, “Memórias...” emana fragilidade por quase todo canto. É, sem qualquer tipo de discrição, um filme ocidental para platéias ocidentais sobre uma tradição oriental fora dos padrões “conhecidos” dos espectadores aos quais ele é voltado. Sendo um filme de Hollywood, isso significa tudo, menos sutileza. Todo movimento em cena é precedido de uma explicação, cada fala ou termo é seguido de um momento “glossário”, em que alguém na tela precisa definir detalhadamente o significado das palavras. Não é dado ao público o prazer da descoberta, o gosto pelo desconhecido que se descortinaria aos olhos e através das imagens. Para Rob Marshall, é preciso inteirar a quem assiste do que, afinal, se está dizendo, num mecanismo irritante de “fala-explica-entende” que, não fosse a simples premissa de desconsiderar a inteligência de quem vê, atravanca alguns pontos da narrativa.

O primeiro terço de filme até instiga a descobrirmos junto com a pequena Chiyo o novo mundo no qual ela se vê inserida – e a dor de ser obrigada a se adaptar a este mundo. Ela simboliza o nosso próprio olhar, e junto com ela tentamos decifrar os códigos e aceitá-los. Mas quando Chiyo cresce (e vira Zhang Ziyi), o filme diminui, tornando-se um drama lacrimoso dos mais rotineiros e fantasiosos. Mais do que isso, “Memórias de uma Gueixa” vira um filme folclórico. A beleza do figurino e da direção de arte, da trilha sonora e da maquiagem, são fumaça para tentar tirar a atenção de um enredo que nada tem a dizer, exceto ser o mais didático possível na utilização do melodrama travestido de filme “de arte” sobre o misterioso e envolvente cotidiano das gueixas.

Basta pensar no gancho que movimenta a ação: Chiyo só encontra motivação para continuar vivendo após sentir forte atração por um senhor que lhe paga um sorvete. A partir dali, ela vai apenas pensar nesse homem, sempre chamado de “presidente”, e forçar seu caminho a cruzar com o dele. Ser gueixa acaba vindo como acaso do destino – ou nem bem isso, como o desfecho vai nos revelar. Antes disso, obviamente, haverá todo tipo de obstáculo a Sayuri, incluindo aí a “vilã” da história (Gong Li) que, como em toda trama maniqueísta e simplista, precisa fazer as piores atrocidades contra a mocinha – e aqui, a ordinária antagonista cria até uma discípula, tornada tão maldosa quanto ela.

Em meio às farpas trocadas, Marshall nos apresenta (literalmente) as gueixas e seus costumes, numa visão razoavelmente viciada não de como esse universo deveria ser, mas de como ele, Marshall, e todo o seu imaginário deslumbrado por cores e formas acima de idéias e significado, pensa que esse universo era. A seqüência em que Chiyo treina e aprende a se tornar uma gueixa, por exemplo, é filmada como se a garota estivesse se transformando num super-herói, com direito, inclusive, a nova identidade – Sayuri, no caso – e uma tutora (Michelle Yeoh) que lhe transmite todos os ensinamentos necessários e lhe passa a lição final para a moça se tornar definitivamente a maior das gueixas. Não surpreende que esse olhar de assombro com algo tão arraigado na cultura do Japão venha de Rob Marshall, mesmo diretor que se deixou vencer pelo lado meramente espetaculoso do musical em “Chicago” e convenceu meio mundo de uma pseudovisão conhecedora do que dizia. “Memórias de uma Gueixa” é seu segundo passo rumo à mastigação plena de elementos teoricamente estranhos à grande massa cinéfila que consome esse tipo de filme. Aceita a mastigada passiva quem quiser.


Marcelo Miranda é jornalista e crítico de cinema do site cinefilia
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