O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN:


Fonte: [+] [-]
Original: Brokeback Mountain
País: EUA
Direção: Ang Lee
Elenco: Jack Gyllenhaal, Heath Ledger e Michelle Williams
Duração: 135 min.
Estréia: 03/02/2006
Ano: 2005


"O Segredo de Brokeback Moutain" - filme de amor


Autor: Cid Nader

É cada vez mais concreta uma discussão que se apoderou do legendário e machista mundo dos filmes de cowboys, uma identidade que o cinema criou e eternizou no imaginário do mundo todo. Tal discussão toma corpo a "cada rodada", expõe a fragilidade masculina - apostando na inversão do mito do macho no velho oeste - e se baseia numa maneira muito própria de enxergar as reais intenções embutidas em situações para lá de dúbias. Os cowboys, invariavelmente, tendem a demonstrar entusiasmadas reações à simples visão de um cano de revólver amigo e demonstram maior apego, cuidado e atenção, às "warm guns" do que às raríssimas mulheres que tiveram a oportunidade de freqüentar as telas nas apresentações de tal gênero cinematográfico.

O mundo do velho oeste sabidamente foi forjado por mãos e comportamentos de machos, que ante a rudeza do ambiente e situações típicas de época tiveram que criar códigos próprios para a sobrevivência, reconhecimento e imposição. Um momento histórico que evidenciava o contato físico como maneira de defesa pessoal - através das lutas - ou de abrigo e aconchego, ante o impoderável das situações climáticas adversas - algo que obrigava uma maior proximidade, com o simples intuito, que fosse, do aquecimento dos corpos. O cinema parece que percebeu ou supôs que tais atitudes despertaram um homoerotismo escondido em corpos machos, necessitados de um extravasar natural de fluidos e sem a possibilidade da fêmea ao alcance das mãos nesses momentos de maior aperto. As grandes obras que foram criadas sob a chancela "farwest" vem sendo revistas sob esse prisma mais liberal e reinterpretadas com um excesso de sub-leituras que derrubam ao chão uma admiração do gênero acalentada por milhões de fãs que viam ali somente histórias de bravura, desapego e natureza selvagem a ser vencida ou domada.

Ang Lee, diretor que invariavelmente acusa seu país de origem - China - de repressor e extremamente conservador, resolveu apostar num conto que havia lido já há alguns anos, "Brokeback Moutain", escrito por Annie Proulx, vencedora do prêmio Pulitzer e que enfocava a vida de dois homens que, à moda do velho oeste, tiveram que dividir as suas vidas, segredos e descobertas num local isolado, selvagem e frio. Lee já havia abordado o homossexualismo masculino em "O Banquete de Casamento" e tanto lá como cá não fez do tema caminho único para a compreensão do que queria dizer. Em "O Banquete...", usou a história como maneira de denunciar, justamente, a incompreensão da sociedade chinesa a respeito de qualquer assunto que fugisse de uma compreensão mais facilmente cotidiana. Em "O Segredo de Brokeback Mountain", na realidade, conta uma história de amor, que se apresenta a dois homens por conta das mesmas condições adversas que fizeram esse "farwest" lido por páginas alternativas.

A história quase que nos quer fazer acreditar que o despertar da a homossexualidade de Ennis (Heath Ledger) e Jake (Jack Twist) talvez nunca tivesse ocorrido, não fosse o isolamento imposto a eles pelo emprego/bico escolhido que os levou ao isolamento e frio das montanhas de Brokeback. Na seqüência de suas vidas, em momentos de intermeios da história, eles se casam com mulheres e têm filhos. O próprio Ang Lee rejeita o rótulo de filme homossexual. Não creio que haja razão para isso, pois defini-lo como uma grande história de amor não impede a possibilidade de compreendê-la como uma história de amor gay. Parece que o preconceito, ou medo, vem carregado desde a China e se alia ao puritanismo americano.

O filme se inicia com o velho e bom apito do trem que passa ao longe - uma das maiores idealizações/sinal dos Estados Unidos para os estrangeiros que forjaram um imaginário de uma nação que se criou forte nas fronteiras e desenvolveu, portanto, forte vínculo com as vias férreas. Se conduz por 3/4 com a aposta nas imagens brancas embaladas pela bela música do uruguaio Gustavo Santaolalla - que fez a música, também, de "Diários de Motocicleta" -, o que não se faz suficiente para embasar a impressão de uma certa futilidade na maneira com a qual são costuradas as seqüências. São curtas nos momentos em que Ang Lee opta pelo diálogo e fortes quando a opção é a de enaltecer a natureza.

Optar pela falta do que dizer pode fazer com que imaginemos algumas possibilidades de finais para a história, e pior, algumas facilitações na trama. E tal acontece, mas surpreendemente não da pior maneira possível porque, no seu último quarto (1/4), o filme ganha em densidade, poesia, desacertos de comportamento, reafirmação de paixões. As elipses malucas e um tanto sem razão de ser pela pressa com que são criadas, são substituídas por diálogos mais aprofundados e necessários, pelo fortalecimento das outras interpretações - que até tal momento só apresentava personagens caricatos a mais da conta, afora o par central - e pela manutenção do que vinha sendo o grande trunfo até então: a qualidade pictórica-musical.

O final, como disse, que poderia ser previsível se concretiza. Forte na "alma" e um tanto esquemático na forma.
Leia também:


O segredo do sucesso

Clássico e atípico ao mesmo tempo