BOA NOITE, BOA SORTE:


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Original: Good Night and Good Luck
País: EUA
Direção: George Cloney
Elenco: David Strathairn, Robert Downey Jr. e George Cloney
Duração: 93 min.
Estréia: 03/02/2006
Ano: 2005


"Boa Noite, Boa Sorte": da atualidade de um filme de época


Autor: Leonardo Mecchi

Em 1954, em plena Guerra Fria, o senador republicano Joseph McCarthy iniciou sua caça às bruxas, com perseguições e ameaças aos supostos simpatizantes do comunismo em território americano. Eram tempos de terror, histeria, delações, suspeitas e supressão de direitos civis, em um paralelo nada confortável à guerra contra o terrorismo perpetrada pelo atual governo Bush.

Se fossem considerado alguns de seus mais recentes projetos (“Três Reis”, “Boa Noite e Boa Sorte”, “Syriana”), George Clooney seria hoje um dos candidatos a essa fúria macartista. São filmes de temática política, que atacam – cada um à sua maneira – o atual cenário político norte-americano e que ainda possuem forte apelo junto ao público. Com “Boa Noite e Boa Sorte”, sua segunda incursão na direção cinematográfica (a primeira foi com “Confissões de Uma Mente Perigosa”), Clooney encara essa questão de frente, retratando justamente o famoso embate entre o jornalista Edward Murrow e o senador Joseph McCarthy, que iniciou a derrocada do macartismo.

A crença irredutível na liberdade da imprensa e em sua função de defensora da sociedade perante os interesses dos poderosos faz parte do imaginário norte-americano. Nesse sentido, “Boa Noite e Boa Sorte” inscreve-se em uma linhagem de filmes como “Todos os Homens do Presidente” e “O Informante”, embora se diferencie em sua abordagem dessas questões. O ex-galã do seriado de sucesso “ER”, ele mesmo filho de um âncora de telejornal, demonstra grande maturidade neste filme, não apenas pela decisão de abrir mão do papel principal de Edward Murrow (que ele cogitou interpretar) em favor de David Strathairn (que realizou um trabalho magistral), mas principalmente por apostar em um drama de idéias, de direção segura e confiante, focando praticamente a integralidade do filme nos bastidores da rede americana CBS (com cenas que remetem a passagens de “Cidadão Kane”, de Orson Welles) e no desenvolvimento, por parte da equipe de Murrow, da estratégia de ataque ao senador McCarthy.

O filme é contido, preciso e elegante, com poucas concessões: não se utiliza da trilha sonora para guiar os sentimentos do espectador, não há arroubos de suspense ou emoção nem tampouco momentos grandiosos de investigação, mas apenas o trabalho duro de jornalistas que buscam trazer a sensatez à pauta em tempos de histeria. Há uma única trama paralela – dois membros da equipe de Murrow (interpretados por Robert Downey Jr e Patrícia Clarkson) que precisam manter seu casamento em segredo por conta de regras da empresa que proíbem a união entre funcionários – que não por acaso é responsável por alguns dos poucos momentos dispensáveis do filme, mas que ainda assim serve para ilustrar a paranóia generalizada da época e como as técnicas macartistas funcionavam, ao levantar nossas próprias suspeitas sobre o casal.

Clooney opta aqui por resgatar o clima noir da década de 50: o filme é inteiramente fotografado em um belíssimo preto e branco (decisão inevitável para conciliar as várias imagens de arquivo utilizadas à trama desenvolvida, mas que também serve à perfeição para ilustrar um período em que todos deviam tomar partido entre delatar alguém diante da mínima suspeita ou ser tachado de comunista), a trilha sonora – sempre diegética (interna ao filme – no caso, gravações que estavam ocorrendo em um dos estúdios da Columbia) – é composta exclusivamente por belas canções jazzísticas, interpretadas pela vencedora do Grammy Dianne Reeves, e Murrow é retratado fumando ininterruptamente diante das câmeras durante seus programas, algo impensável em tempos politicamente corretos.

Ao utilizar longos trechos de entrevistas e depoimentos realizados na época e mostrar McCarthy unicamente através de imagens de arquivo, Clooney (que além de responsável pela direção e roteiro ainda interpreta Fred Friendly, produtor de Edward Murrow) utiliza-se do mesmo expediente do âncora da CBS, que ao invés de atacar as atitudes de McCarthy, apresentava apenas suas declarações e contradições, deixando para o espectador a responsabilidade por chegar às suas próprias conclusões.

Pois Murrow acreditava no poder da mídia de educar e conscientizar a população. Como disse em seu discurso diante da Associação de Diretores de Notícias de Rádio e TV dos EUA em 1958, discurso esse que inicia e termina o filme de Clooney, “àqueles que dizem que o povo não assistiria (a uma programação mais voltada à reflexão), que não estariam interessados, que são demasiadamente complacentes, indiferentes e isolados, eu posso somente responder: há, em minha opinião de repórter, consideráveis evidências contrárias a essa opinião. (...) Este instrumento pode ensinar, ele pode iluminar, sim, e pode até mesmo inspirar. Mas somente o poderá fazer à medida que estivermos determinados a usá-lo para estes fins. Caso contrário, ele nada mais é do que um emaranhado de fios e luzes em uma caixa. Há uma grande e talvez decisiva batalha a ser travada contra a ignorância, a intolerância e a indiferença. E nessa batalha, a televisão pode ser uma arma útil”.

É triste notar como as batalhas de Edward Murrow continuam imprescindíveis, e como temos cada vez menos pessoas dispostas a travá-las. “Boa Noite e Boa Sorte” é um filme de época que não busca levar o público de volta ao passado, mas mostrar como esse passado continua dolorosamente atual.
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