PARADISE NOW:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: França / Alemanha / Israel / Holanda
Direção: Hany Abu-Assad
Elenco: Kais Nashef, Ali Suliman, Lubna Azabal, Amer Hlehel, Hiam Abbass.
Duração: 90 min.
Estréia: 27/01/2006
Ano: 2005


"Paradise Now" - tentando explicar o "inexplicável"


Autor: Cid Nader

"Se não tememos a morte ela virá súbita e indolor" Ouvindo essa frase - inserida no meio de longas conversas/catequismos entre uma espécie de religioso/coordenador/explicador e os dois jovens que são preparados para assumir o aterrorizante papel de homens-bomba - podemos tentar uma breve compreensão de algo que soa como inexplicável para nós, simples mortais, que é ausência do temor ante à morte, por parte desses seres que entregam os corpos por uma causa. Ela - a frase - poderia ser uma apaziguadora da mente perto do sofrimento e dor que serão imputados ao estado material do ser, já que as possibilidades espirituais - pós-corpóreas, portanto - ganham outros carinhos e promessas, quando se é prometido o surgimento de um anjo arrebatador, que aparecerá logo após a morte para o resgate em direção ao paraíso. Esse lado espiritual - que parece ser levado a sério e de extrema relevância para os povos muçulmanos - é incentivado por um discurso coerente e bem centrado, que é recitado para dar razão e justeza ao ato do suicídio. Discurso que é complementado por todo um ritual, de matiz absolutamente oriental - poderia ser judaico, hindu ou budista -, onde os corpos dos "santificados" jovens são lavados e envolvidos por tecidos de aparência virginal e os cabelos são cortados. Ritual que é concretizado sob cânticos religiosos, com um clima que vai sendo criado de maneira tão competente, que é possível se apostar na total anuência de Deus quanto à validade do ato extremado como o caminho certo ao Seu encontro.

Toda essa seqüência dos preparativos, dá valor de obra inédita ao trabalho realizado por Hany Abu-Assad. Nunca se viu no cinema tal clareza na exposição dos motivos que poderiam demover dois jovens de sua vida mundana por via tão drástica. Só que Abu-Assad não faz dessa composição plataforma em defesa de atitude tão radical como maneira de combate e revolta ao jugo israelense, e deriva sua história para as dúvidas, ou não, que passam a se apoderar de Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), na única noite que tem pela frente ainda, com a vida composta por espírito e matéria.

Eles são dois jovens, que vivem de maneira muito mais próxima da nossa realidade do que é usual idealizarmos aqui no ocidente. Existe vida familiar aprazível, desejos e interesses sexuais iminentes em seu viver. Portanto, acreditam na - e exercem a - vida terrena.

O diretor faz seu filme de maneira seca, sem nenhum tipo de excesso técnico. Filma em 35mm, com aquela qualidade típica da película, e mesmo assim imprime urgência jornalística quando a história pede. Principalmente na primeira metade, cria grandes momentos com pequenos movimentos horizontais de câmera que são complementados com lentos closes - bastante interessante. Não "santifica" ao extremo os momentos de preparação para o ato - explica-os, sim - e embute, até, pequenos momentos de bom humor quando, por exemplo, após emocionante discurso de despedida, revela que a filmagem do ato terá que ser repetida por defeito no equipamento; e não uma só vez.

Por outro lado, o filme perde um pouco de seu impacto - só um pouco - na segunda metade, quando a história parece se estender um pouco mais da conta, artificialmente. As dúvidas crescem nas cabeças dos jovens, após situação que não cabe a mim revelar, e o filme toma um certo rumo esquizofrênico, em momentos de busca e procura, o que destoa um pouco do ritmo certeiro e direto que vinha sendo empreendido até então. Na realidade, situação notada por conta do primor inicial.

O tema é polêmico e deve gerar controvérsias e discussões, tanto por parte dos lados envolvidos pela questão, quanto por análises de setores mais envolvidos com as relações humanas em geral. Hanny Abu-Assad não mostra uma deturpação de idéias - sim, toma partido, mas de maneira racional, pensada e coerente.

É ganhador de Globo de Ouro, não de Oscar.
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