AS CHAVES DE CASA:


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Original: Le Chiavi di Casa
País: Alemanha, França, Itália
Direção: Gianni Amelio
Elenco: Kim Rossi Stuart, Andrea Rossi e Charlotte Rampling
Duração: 105
Estréia: 27/01/2006
Ano: 2004


“As Chaves de Casa” - cáspite


Autor: Cid Nader

Desde o início desse nosso site, por várias vezes tive a oportunidade de citar o meu apreço pelo cinema conduzido e executado por diretores da vertente humanista. Já falei de Kiarostami, de Gitai , Kore-eda, dos irmãos Dardenne... Só que o passar dos dias e da idade fizeram com que me esquecesse – talvez a falta de oportunidade, também – de Gianni Amelio, diretor italiano de trabalho irretocável nesse sentido. Ficou conhecido no Brasil, principalmente, por obra e graça da Mostra Internacional de Cinema, que nos apresentou em primeira mão sua cinematografia e na seqüência a sua própria figura – esteve aqui como jurado da Mostra.

“América”, “Assim é que se Ria”, “Ladrão de Crianças” são obras necessárias para quem deseja se embrenhar pelo mundo do cinema de boa alma. Amelio é um diretor que se importa com os desguarnecidos ou com os refugiados albaneses, por exemplo. Comparece aqui, nessa sua nova investida, para falar de seres especiais, de relacionamentos que devem ser retomados ou ainda iniciados. Conta a história de pai, Gianni, que terá pela frente uma nova maneira de encarar o viver, pois deverá empreender uma viagem – no sentido figurado e físico - com o filho, Paolo, a quem abandonou desde o nascimento, por imputar-lhe culpas e responsabilidades num novo e inesperado futuro que a vida havia lhe reservado.

A primeira cena do filme já nos apresenta um ser como que pego em culpa e falta, com um Gianni que não consegue encarar o seu interlocutor com a cabeça erguida; de ombros caídos e olhos que evitam encarar. Amelio, portanto, consegue embutir numa só pessoa e numa só cena, todo a insegurança que é capaz de abater um homem que se julgue omisso no momento da retomada do objeto – pessoa – a quem teria abandonado. Por fraqueza?

Pai e filho embarcam num trem para uma viagem de caráter específico, com motivo real bem delineado. Mas a verdadeira viagem, a real intenção injetada pelo diretor, será a de descobrimento, a de aproximação, a de revelação. Não vou contar uma particularidade que você descobrirá ainda no início da película, mas é de caráter tão impactante e necessário no desenrolar das descobertas e na composição dos relacionamentos que virão a se estabelecer, que mesmo a sua revelação se dando com pouco tempo de desenvolvimento do filme ficará mais bem revelada pelo diretor do que por mim.

Paolo acaba por se tornar mais que um “novo” filho para Gianni, uma nova maneira de encarar a crueza e aspereza da vida. Envolve-o, e aos outros que se aproximam dele, com reações tão inusitadas e próprias, que acaba por angariar para si uma aura de entidade acima do que dita o comportamento formalmente denominado por “normal”. A figura que aparentemente se nos apresenta como absolutamente dependente, só reforça as reais necessidades e carências do ser humano. Gianni Amelio nos põe e expõe com todas as fraquezas, na tela.

O filme carrega dentro de si metáforas espetaculares. Há sempre o movimento dos trens; se viaja neles, se hospedam – pai e filho – num hotel que tem como paisagem o constante ir e vir deles. A linha férrea - sempre presente – está lá para mostrar que o deslocamento é possível mas que não é totalmente livre, isso é, pode-se ir para longe, mas o caminho marcado pelos trilhos demonstra que existe uma imposição física evidente e certa para atrapalhar possíveis e necessárias tentativas de vôos próprios. Mas acontece uma viagem de navio – mar, água, liberdade – e o caminho demarcado rui; um aparelho é jogado no mar e completa-se o ato de libertação.

A liberdade que é oferecida metaforicamente por Amelio, tem como alvo óbvio Paolo e como alvo implícito – bastante óbvio também – Gianni. Mas atinge a nós todos que, à saída da sala, estaremos nos perguntando por que filmes como esse não são feitos mais vezes? Por que diretores como esse não tem o acesso facilitado ao grande público? Vida longa aos humanistas da tela grande.

P.S.: "As Chaves de Casa" será exibido no formato digital e em película (35mm). Faça a sua escolha.
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