CRIME DELICADO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Beto Brant
Elenco: Marco Ricca, Lilian Taublib, Felipe Ehrenberg, Maria Manoella.
Duração: 87 min.
Estréia: 27/01/2006
Ano: 2005


"Crime Delicado" - o momento da virada


Autor: Cid Nader

Eu, particularmente,considero Beto Brant um dos maiores diretores brasileiros em atividade, talvez o maior desde a retomada. Quando surgiu com seu curta "D'ove Meneghetti" - ganhador do Festival de Gramado no mesmo ano em que "Ilha das Flores", de Jorge Furtado, tornando-se referência mundial - já pude perceber, em uma breve conversa, ser ele um cara inundado de idéias, inquieto na medida certa e necessária.

Veio então "Os Matadores", um filme que já se notabilizou pelo deslocamento do eixo geográfico - foi filmado na fronteira do Mato Grosso do Sul com Paraguai - para o desenvolvimento de sua trama, que saia dos pólos óbvios, Rio e São Paulo, e também do pólo pitoresco, o ardente Nordeste, para localizar-se numa região distante do "verdadeiro" clima nacional e do nosso idealizador modo de enxergar o Brasil". Antenado com o movimento externo que vigia na construção das obras cinematográficas de então, Beto Brant construiu um filme de estrutura circular, não linear, o que poderia caracterizar obra datada quando revisto à frente, fato que não sucedeu pela excelência da obra em si, com qualidade de roteiro, literatura interessante e inteligente, bom trabalho na direção de atores - mérito que se repete até hoje na obra do diretor - e, justamente, o fato da escolha de nova praça para o desenvolvimento de seu trabalho.

Veio "Ação Entre Amigos", não tão bem acolhido por crítica e público, mas que mereceria uma revisão por parte dos detratores, pois trata-se de obra bastante interessante, que se não carrega o peso do impacto do filme inicial, confirma um diretor de peso e qualidade que conduz história já tremendamente repetida com vigor e "classe". "O Invasor" talvez tenha sido seu primeiro grande sucesso de público, situação que ocorreu, provavelmente, pela coragem em usar o "Titã" Paulo Miklos como um dos personagens da trama, fato que gerou a curiosidade e conseqüente acesso dos fãs às salas de cinema, e que reafirmou a sua capacidade no quesito: "direção de atores".

A curiosidade, até então, na já razoavelmente profícua carreira de Beto, era que o seu currículo não ostentava uma identidade única capaz de criar uma ligação entre seus filmes, isto é, não poderíamos defini-lo como um diretor autoral - o que não desabona de maneira alguma todo o seu passado, muito ao contrário, faz dele um caso a parte dentro da categoria de cineastas, por manter um crivo de qualidade superior, agindo de maneira diferente e particular em cada um de seus rebentos; algo difícil de acontecer.

Mas agora ele surge com "Crime Delicado" e dá uma guinada na carreira. Por mais incrível que possa parecer, seu melhor filme - certo, concordo que é uma avaliação bastante complexa dentro de carreira tão particular -, talvez o filme que o esteja colocando na posição - raríssima - de diretor autoral. Neste filme, Beto Brant encontra outras possibilidades, outros tipos de linearidades. Obra filmada com tomadas elegantes e sólidas, sem malabarismos desnecessários como o da câmera na mão, por exemplo, que treme sem razão nenhuma para isso, apenas para tentar criar clima de imperiosa velocidade e tensão - tentação da qual não conseguem escapar, inclusive, alguns cineastas de cabelos já mais esbranquiçados, e da qual se utilizou ele também, mas sempre com razão de ser e num contexto de época que evocava tal uso por razões que anunciavam novos momentos mais econômicos no confeccionar cinema.

Tem gente que compara essa sua nova opção como filmar teatro. Mas o que se constata é que "Crime Delicado" é cinema na essência primal da definição, já que trata além de teatro - Antônio Martins (Marco Ricca) é crítico teatral -, também de pintura - Jose Torres Campana (Felipe Ehrenberg) pinta sua musa Inês (Lilian Taublib), num papel surpreendente e de impacto - e de música - com Schubert "interpretando" um papel importante no andamento do filme.

Fala, a história, de racionalidade e perda dela por paixão; de até que ponto invadir pode ser considerado crime ou não. Até que ponto a loucura da paixão pode ser considerada "responsável" por atitudes que ultrapassam os limites da sanidade ou do razoável, e até que ponto o reagir instintivamente pode ser considerado anti-natural. Isso tudo num filme que caminha de maneira absolutamente formal na composição de suas imagens, até que, num dado momento, tem sua estrutura ficcional quebrada e é invadido por um caráter documental autêntico, numa situação de estranheza absolutamente saudável e necessária. Como faz bem sabermos ou notarmos, ou imaginarmos, quiçá, o momento da virada na carreira de alguém.

Repisando, portanto: característica de Beto Brant é de compositor de uma obra impessoal, não tendo marcas suficientemente repetidas, para criar uma marca registrada. Se "Crime Delicado" não for o início de um caminho mais autoral, mais "reconhecível", se for mais um filme seu para acrescer e constar num acervo que não se repete, "no problem"; teremos mais um grande filme para curtir e discutir.
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