MUNIQUE:


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Original: Munich
País: EUA
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Geoffrey Rush, Mathieu Kassovitz, Kurt Russell.
Duração: 164 min.
Estréia: 27/01/2006
Ano: 2005


Spielberg na corda bamba


Autor: Cesar Zamberlan

“Munique” é um filme diferente na filmografia de Steven Spielberg, um diretor de filmes grandes, mas nem sempre de grandes filmes. Spielberg sempre trabalhou com assuntos grandiosos para não dizer gigantescos: batalhas espetaculares como em “Soldado Ryan”, seres pré-históricos como em Parque dos Dinossauros, invasão alienígena como em “A Guerra dos Mundos”, a fuga do holocausto como “A Lista de Schindler”. È um diretor que pensa sempre no espetáculo, no espetacular, nos atos heróicos e nos grandes feitos, mas deixa pouco espaço para a reflexão, para a análise crítica.

Mesmo quando mira suas lentes em pessoas, digamos, comuns, buscou nelas a superação, as transforma em heróis, vide os personagens de “Prenda-me se for capaz” e “Império do Sol”, entre outros. O que importa para Spielberg é o espetáculo, emocionar o público com seus heróis, forjados ou não, super dimensionados ou não. O cinema de Spielberg precisa desse espetáculo, desses heróis, não respira sem eles e talvez seja por isso que o seu novo filme, ”Munique” não tenha decolado e desagradado gregos e troianos, ou melhor, palestinos e israelenses.

Com “Munique”, Spielberg parece ter entrado num território hostil ao seu cinema no qual heróis e vilões são sempre tão facilmente identificáveis. Ele poderia ter colocado os palestinos como vilões da história, como terroristas sanguinários, e aderido uma posição francamente pró-Israel - que era até o que se imaginava do diretor de “A Lista de Schindler” - mas não, pelo menos não de forma tão declarada, ficou no meio do caminho, arranhando-se inteiro nesse arame farpado que é o conflito entre israelenses e palestinos e construindo um filme igualmente vacilante. Não à toa, tem dado agora declarações que faria tudo por Israel e pelos EUA. Declarações visando amenizar o clima de indisposição que seu filme criou com os setores mais tradicionais da sociedade e da indústria cinematográfica que sempre tiveram Spielberg como um aliado, mais que isso como um gênio da raça

Spielberg entrou, de certa forma, em conflito com o tipo de cinema que realiza. Para alguns, isso pode representar uma mudança de postura do diretor, numa opção por um cinema mais reflexivo, menos fechado no espetáculo e menos propagandista dos seus heróis. Mas tenho minhas dúvidas, até por achar que Spielberg já está envolvido demais com o cinema que faz e com essa indústria a ponto de virar o jogo agora ara um cinema mais autoral. Parece me, e as declarações que ele tem dado apontam para isso, que foi um erro de cálculo, talvez ele tenha achado que daria conta do recado ao mexer nesse vespeiro e não pensou que “Munique” é uma história que joga contra o modelo de cinema que faz, que coloca limites à forma Spielberg de fazer cinema, forma aqui em contradição com o material histórico, espinhoso por excelência e que exige tratamento e abordagem não muito simplistas ou maniqueístas.

Não é um filme ruim, mas é um filme estranho, irregular, entre o thriller político, a caçada a 12 alvos palestinos ligados ao Setembro Negro, grupo que realizou o atentado de Munique na Olimpíada de 1972, e um esboço de reflexão dos personagens envolvidos nessa guerra interminável, mais notadamente de Avner, líder do grupo que caça os 12 palestinos.

Talvez seja melhor buscar no circuito filmes mais sólidos sobre o conflito, caso de “Paradise Now” e “Free Zone”, feito por cineastas que professam uma visão clara sobre o tema e tem liberdade para isso, ou rever em DVD os filmes de Spielberg nos quais o modelo Spielberg de fazer cinema seja condizente ao tema: o espetáculo pelo espetáculo. Que fria hein Spielberg.
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