O SOL DE CADA MANHÃ:


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Original: The Weather Man
País: EUA
Direção: Gore Verbinski
Elenco: Nicolas Cage, Michael Caine, Hope Davis, Gemmenne de la Peña, Nicholas Hoult, Michael Rispoli, Judith McConnell, David Darlow.
Duração: 102 min.
Estréia: 20/01/2006
Ano: 2005


A primeira boa surpresa do ano ou Bob Esponja é o sol quadrado


Autor: Fábio Yamaji

Gore Verbinski é um diretor que vem se destacando com filmes pelos quais inicialmente não se dá nada. Que expectativas você tinha para o terror “O Chamado” (2002), refilmagem de um sucesso japonês? E quanto à adaptação pra telona de uma atração da Disneylândia (!), “Piratas do Caribe” (2003)? Quem torceu o nariz e não viu, perdeu. “O Chamado” saiu melhor que o original - que me perdoem os puristas (sim, sei que o final de “Ringu” é mais assustador, mas este perde de lavada em todos os outros aspectos) e “Piratas” é uma das mais divertidas aventuras desta década, sem exageros.

Claro, não são filmes autorais, longe disso, mas sim produções de grandes estúdios como Dreamworks, Disney e, este novo, Paramount. Mesmo assim Verbinski tem procurado não subestimar a inteligência do espectador e arriscado uma sequência ou outra mais elaborada experimentalmente (o curtinha da fita mortal de “O Chamado” é uma pequena obra-prima surrealista, e os flashbacks de faroeste em estética ‘cinema-primitivo’ de seu outro longa, o malhado “A Mexicana” (2001), são engraçadíssimos).

Desta vez ele surpreende com este drama cômico – ou comédia drámatica, como preferir – low profile, pé no chão e um tantinho existencialista. “O Sol de Cada Manhã” conta a história de Dave Spritz, o homem do tempo num canal local de Chicago, num momento negativo da sua vida. Está separado da mulher que ainda ama, não consegue ajudar a filha desajeitada e não sabe com quem seu filho anda. E o pai, seu único lastro - a figura que mais admira e de quem recebe conselhos - descobre sofrer de uma doença grave. Pra complicar, de vez em quando leva um copo de milk-shake ou cerveja na cabeça – cortesia dos fãs descontentes com suas previsões, nem sempre certeiras. Mas mesmo assim o trabalho vai muito bem. Uma possível mudança para um canal nacional, sediado em Nova York, poderá reverter sua maré de azar, acredita.

Os enquadramentos rigorosamente ortogonais de Verbinski (a câmera se posiciona em ângulo reto ao assunto captado, ou seja, nunca ‘em ângulo’ ou 3/4) reforçam o sentimento de estagnação e falta de perspectiva na vida de Dave. Também remete à posição da câmera que o grava todos os dias no trabalho, que limita bastante seu espaço de ação e o cerca numa parede toda pintada de verde, para o chroma-key. Dave está encurralado e isolado no infinito. Esse controle também é percebido na montagem cadenciada - sempre acompanhada da esperta trilha sonora original – e no roteiro muito honesto e bem humorado, envolvendo-nos com facilidade no drama deste cara que só quer fazer a coisa certa.

Num elenco que inclui talentos como Nicolas Cage e Hope Davis (“Próxima Parada, Wonderland”) é Michael Caine quem domina a cena com presença luminosa, no papel do pai de Dave. Ele consegue muito com muito pouco. A ele basta um olhar para se entender o que se passa pela sua cabeça. E o respeito de Cage por Caine transparece na tela, contribuindo para o filme.

Concluindo, não posso deixar de chamar atenção para a apropriada trilha sonora de Hans Zimmer (co-composta por James Levine). Numa eficiente mistura de estilos, Zimmer dá mais um de seus casuais estalos de originalidade, em meio a uma carreira bastante produtiva mas marcada por constantes releituras de si mesmo. “Amor à queima-roupa”, “Conduzindo Miss Daisy”, “Rain Man”, “Thelma & Louise” e “Além da Linha Vermelha” são outros desses raros e preciosos casos em que Zimmer cria algo realmente bacana. Mas infelizmente o CD de “O Sol de Cada Manhã” não será lançada no Brasil, engrossando a enorme lista de trilhas fundamentais que continuam inéditas por aqui. Resta-nos recorrer ao Ebay, mais uma vez..

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