CANÇÕES DA TERRA DE MINHA MÃE – EXÍLIO NO IRAQUE:


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Original: Gaomgastei Dar Aragh
País: Irã
Direção: Bahman Ghobadi
Elenco: Shahab Ebrahimi, Allah-Morad Rashtian, Faegh Mohamadi, Iran Ghobadi
Duração: 97 min.
Estréia: 20/01/2006
Ano: 2002


"Canções da Terra de Minha Mãe - Exílio no Iraque" - já deu


Autor: Cid Nader

Uma das vezes em que mais vi gente chorando numa sala de cinema - preocupando-me com o provável processo de desidratatação que parecia certo, pelo excesso de lágrimas vertidas pelo povo - foi durante a apresentação de "Tempo de embebedar Cavalos". Um filme sobre sofrimento, abnegação, muito frio e condições adversas para a sobrevivência de qualquer ser.

Do mesmo diretor, Bahman Ghobadi, e com o mesmo grau de adversidades físicas e meteorológicas, estréia agora "Canções da Terra de Minha Mãe - Exílio no Iraque" - concorrente desde sempre a maior título de filme a estrear no Brasil nos próximos 10 anos. Uma jornada com pique de filme de Emir Kusturica - portanto acelerada, até certo ponto -, num trabalho que envolve músicos e música.

As figuras escolhidas para protagonizar os papéis centrais são dois irmãos já maduros, com aparência de quem acabou de sair da trupe que completa os quadros de Didi Mocó (Renato Aragão); com cara mesmo de figurinhas dos "Trapalhões".

A história se passa na fronteira do Irã e do Iraque, por onde vagueia um povo desterrado - os curdos, rejeitados pelos muçulmanos e também não considerados cristãos - violentamente perseguidos, por vezes pelos iraquianos, por vezes pelos iranianos e em outras pelos turcos. No momento em que se passa essa história eles estão recém descobrindo covas coletivas e clandestinas, entupidas de cadávares de pessoas assasssinadas pelo ditador e genocida de plantão, à época, Saddam Husseim.

Os dois irmãos acompanham o pai, reconhecido e veterano cantor local, que busca em meio aos refugiados uma de suas ex-mulheres, uma cantora que o abandonou e atravessou a fronteira, com um novo homem.

O diretor mostra as peripécias dessa busca e aproveita para denunciar a perseguição secular de que é vítima o povo curdo. Embrenham-se pelas montanhas, que vão se enchendo de gelo e frio conforme avança a procura, situação adversa que não abafa a vontade e necessidade da continuação da luta pela sobrevivência do povo errante. Os cantores acompanham a briga contra as adversidades empreendida pelos curdos, que se ajudam mutuamente e intensamente, sempre amaldiçoando o demônio Saddam. Um dos irmãos apaixona-se pela bela voz de uma jovem desconhecida e o outro depara-se com a oportunidade de adotar um filho homem já que, casado com várias mulheres, teve a "desventura" de ter somente filhas.

O filme tem tragédia, tem música, humor e amores, que florecem e que se vão. Componentes que poderiam revelar ao espectador desavisado ou um grande trabalho ou um grande dramalhão. E o filme se inicia com a pior das duas probalidades, mas arredonda-se e acerta-se, compondo no decorrer um belo painel sobre diferenças. Fazendo-nos concluir, pela capacidade do diretor em conduzir sua proposta, que as particulares maneiras de viver de cada povo - os lugares inóspitos e aparentemente impraticáveis -, nada mais são do que uma via deliberadamene escolhida, e que no final, na realidade, a essência de ser humano sempre prevalece. O que atrapalha o simples querer continuar são as idiotices "sectarizantes" criadas pelas imbecis normas criadas, com o intuito de fazer prevalecer um deus diferente e exclusivo - não universal - que privilegiaria povos e deserdaria outros.

Um bonito trabalho atrapalhado de Bahman Ghobadi.
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