SUÍTE HAVANA:


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Original: Suíte Habana
País: Cuba
Direção: Fernando Pérez
Elenco: Documentário
Duração: 84 min.
Estréia: 24/02/2006
Ano: 2003


Nós que Aqui Estamos


Autor: Érico Fuks

Não que sejam hermanos gêmeos, mas há mórbidas semelhanças entre o cubano Fernando Pérez e o brazuca Marcelo Masagão (“1,99”; “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”; “Nem Gravata, nem Honra”). Há diferenças estilísticas aqui e acolá, principalmente no registro imagético e no tratamento cromático dado às formas, aos objetos e às pessoas. Mas muito se esbarram na maneira de remodelar um gênero, procurando deixar seus traços estilísticos acima das hipóteses em torno de receitas acadêmicas sobre verossimilhança e construção ficcional.

Estruturalmente, “Suíte Havana” é um documentário. As pessoas retratadas, de fato, são como na tela estão. A captação de cenas é de lugares que existem de verdade, inclusive o famoso monumento de John Lennon. Entretanto, é nítido um tratamento simbolista dado a cada um desses objetos. A utilização de filtros que interferem no resultado crômico final é pra lá de aparente. Pérez atribui um cuidado pessoal muito forte nas imagens, e sua influência sobre a realidade estrutural é o que conduz este trabalho.

Este suor subjetivo que se impinge a “Suíte Havana” e lhe confere um semblante mais impressionista do que naturalista vem a romper, de forma nem tão inédita assim, as formalidades do documentário convencional. Difícil dizer neste caso onde estão os limites que separam um gênero e outro. Embora nem tão fantasioso como a ficção, a presença de alguns outros recursos autorais, como a trilha sonora mais ou menos ao estilo new age que permeia os silêncios dos personagens, agindo como uma espécie melódica de locutor em off, deixa “Suíte Havana” mais próximo à narrativa fabular do que ao registro realista.

A prova mais contundente de que os fatos são panos de fundo que apenas sustentam uma narrativa libertária é como os elementos de identificação das “obras de arte” se esvaem ao longo da projeção. Igual a uma exposição de galeria de arte, há legendas indicando os nomes e a idade dos protagonistas. Cada uma das pessoas representa a multiplicidade dos grupos sociais que vivem hoje em Havana. Os dez personagens reais representam na película as suas próprias vidas sem entrevistas, diálogos ou narração. Um jovem bailarino, uma senhora vendedora de amendoins, uma criança com síndrome de Down, um médico que sonha em ser ator, entre outros.

Nesse aspecto, Pérez e Masagão parecem beber da mesma fonte. Esse processo dissociativo faz-se presente nos trabalhos de ambos. Os retratos estatísticos são vistos como fragmentos de um todo, sendo que pouco importa a ordem desses fatores para a concepção de conjunto. “Suíte Havana”, então, é um filme que pode ser entendido como uma somatória de artigos, independentes entre si, que têm como denominador comum apenas a localização geográfica e o contexto político da cidade citada. Assim como a composição de uma suíte, nada mais do que a justaposição de compassos de uma opereta.

Similarmente, Masagão também tem esse semblante artístico. Amontoa um complexo de informações comprovadamente verdadeiras, que podem funcionar como legendas ou entendidas como algo além das imagens, mas não estabelece com elas nenhum tipo de manifesto político ou instrumento de contestação. Trata-se de um aporte literário para uma coleção de instantes fotogênicos, com começo, meio e fim em si próprios. Nesse sentido, tanto um quanto outro encontram-se num ângulo oposto ao de Coutinho, que, além de interferir no resultado de seu trabalho durante sua própria execução, extrai do objeto um conteúdo mais inerente a ele mesmo do que à visão de mundo do diretor. Claro que ambos usam o poder de manipulação mas, se fosse estipulado um grau de comparação, Coutinho funciona mais como um repórter, enquanto que Pérez/Masagão seriam os figurinistas e maquiadores.

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