A DAMA DE HONRA:


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Original: La Demoiselle D\'honneur
País: França/ Alemanha/ Itália
Direção: Claude Chabrol
Elenco: Benoît Magimel, Laura Smet, Aurore Clément, Bernard Le Coq, Solène Bouton, Anna Mihalcea, Michel Duchaussoy, Suzanne Flon e Eric Seigne.
Duração: 111 min.
Estréia: 20/01/2006
Ano: 2004


"A Dama de Honra" - tormento e sensualidade


Autor: Cid Nader

Claude Chabrol faz parte daquela gama de cineastas franceses que jamais tem qualquer obra questionada por parcela considerável dos cinéfilos de todo o mundo, ganhando no Brasil - essa terra de francófilos - status de Deus, com direito a dogmatismo ante às suas obras - já que divinas -, e o sossego de saber que qualquer ser que ousar discordar de qualquer realização sua será encaminhado ao inferno, sem direito a uma passadinha pelo purgatório. Sei, portanto, que os meus dia pós-corpóreos serão quentes.

Quando acerta, porém, é capaz de realizar filmaços inquestionáveis, como é o caso de "A Dama de Honra". Antes de tudo é um trabalho tremendamente bem filmado, com ousadias e criatividade capazes de conduzir suas câmeras ao altar da excelência. Já inicia sua jornada com um - na realidade, vários - travelling que conduzem os espectadores por toda a exibição dos créditos iniciais, numa horizontal rigorosíssima, que começa com uma imagem com pouquíssima definição de profundidade, contornos e cores, recuperando-os durante o trajeto, até sua total regeneração ao término da viagem, diante de uma repórter que anuncia o sumiço de uma garota; isso diante da casa dos pais da desaparecida.

Continua a aula de como se deve filmar, apresentando uma interferência onde mãos calçam luvas, eclipsando quase 1/3 da tela de um televisor, num efeito interessante que contrapõe a realidade da vida dos personagens que habitam a película, à outra realidade do noticioso televisivo. Só para contar mais uma: há uma cena que começa enevoada, completada por véus e espelho.

A história, que começa mostrando uma família composta por mãe, um filho e duas filhas - todos adultos -, centra seu foco inicial nos preparativos para o casamento da mais velha, dividindo importância com a paquera da mãe por um sujeito pouco conhecido pelos filhos, de hábitos reservados, e que não consegue angariar a simpatia, por parte da família, no primeiro encontro. Com o tempo, ganham importância e relevância Senta, uma das damas-de-honra, que carrega o nome e os problemas da heroína atormentada do "Holandês Voador", uma espécie de ode mitológica, que tem para a Holanda importância semelhante à de "D. Quixote de La Mancha" para a Espanha.

Senta explode em sensualidade, uma das características de seu personagem, e se revela um ser que transita por outras esferas de racionalidade. Uma pessoa que exercita suas paixões de forma exacerbada ao extremo. Apaixona-se por Philip e carrega-o para si, roubando dele, aos poucos, todos os resquícios de comportamento lógico - fato predominante em seu comportamento habitual. Envolve-o, e a nós também, com seu comportamento cheio de tensão sexual.

Chabrol criou uma história que fala do ser humano que deseja ultrapassar as barreiras do conformismo, do burocrático e chato dia-a-dia, mas que não encontra as vias "saudáveis" para tal e sim , opta por embrenhar-se pelos caminhos mais perigosos e instáveis, porém mais excitantes e "animalmente" compensadores.

Ao criar uma personagem que poderia passar por mentirosa contumaz, evidencia o quanto o apelo instintivo - poderíamos chamá-lo de clamor do sexo - supera, quando não contribui mais ainda, as adversidades mais convencionais de um comportamento humano instável.

Claude Chabrol faz de sua filmografia campo para observação do comportamento humano. Porém nem sempre consegue atingir o nível de obra-prima que consegue aqui, nesse petardo cheio de climas.
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