FREE ZONE:


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Original: Idem
País: Bélgica/ França/ Israel/ Espanha
Direção: Amos Gitai
Elenco: Natalie Portman, Hana Laszlo, Hiam Abbass, Aki Avni, Makram Khoury, Uri Klauzner, Carmen Maura e Tinkerbell.
Duração: 95 min.
Estréia: 20/01/2006
Ano: 2005


“Free Zone”: "até quando este ciclo de horror vai perdurar?"


Autor: Cesar Zamberlan

Se a primeira impressão é a que fica, o plano seqüência inicial de “Free Zone” de Amos Gitai deixa uma impressão das mais marcantes, plano digno para entrar na história do cinema e de derreter o coração dos fãs de Natalie Portman e do bom cinema. E não se trata de um plano mirabolante, engenhoso, aos moldes dos planos de “Soy Cuba” filme cubano retratado no documentário “Mamute Siberiano”. Não, a câmera está fixa, abre apenas um pouco, quase nada, e mostra Rebecca, a norte-americana vivida por Natalie Portman chorando dentro de um carro em frente ao Muro das Lamentações. Além dos soluços desesperados, ouve-se uma música típica, “Had Gadia” (cordeiro), canção típica da região que data da Idade Média, de autoria desconhecida e que diz muito sobre o filme e sobre a história que Gitai irá mostrar ou melhor sugerir.

A canção, que voltará no final em outro plano belíssimo, fala de uma ação de violência que desencadeia outra e assim sucessivamente, mostrando como o ciclo de opressão e violência é interminável e que a única esperança seria um acerto de contas com Deus, em um outro plano e aqui não cinematográfico, é claro. No filme, a canção é interpretada por Chava Alberstein, considerada a Jean Baez israelita, num tom de também acentuada dor e lamento como o choro de Rebecca. A canção resume a situação atual daquela região do planeta, de perseguição, violência e opressão intermináveis. A letra da música é mais ou menos assim: “meu pai comprou por apenas duas moedas um cordeiro, veio o gato e comeu o cordeiro, veio o cachorro e comeu o gato, veio o leão abateu o cachorro, veio o homem e abateu o leão” e assim vai até a pergunta chave: “até quando este ciclo de horror vai perdurar? Está começando tudo de novo”.

A intensidade dramática da cena, acentuada pela canção e o tom da cantora; a duração da seqüência, o plano é longuíssimo tem quase 10 minutos, e a atuação de Natalie dão ao início de “Free Zone” uma beleza singular e criam uma expectativa enorme em relação ao filme e os motivos que levam Rebecca a tamanho desespero. Sabemos então, com o carro em movimento, que ela é conduzida por uma outra mulher, Hanna, esta israelense. Mas o filme não vai de cara explicar estas questões e nem mesmo depois, vai sugerir apenas o que poderia ter acontecido e usa para tal imagens em flashback sobrepostas a cenas da paisagem com o carro em movimento, criando uma dualidade temporal nova no cinema, pelo menos que eu conheça. Ainda assim, como a imagem que se sobrepõe a Rebecca admirando a paisagem, o motivo de seu desespero também é difícil de ser visualizado, é nebuloso, faltam elementos, não conhecemos todas as peças desse quebra-cabeça.

Durante uma sessão do filme de madrugada no Cinesesc, na virada cultural, alguns amigos chegarem a me perguntar o que havia acontecido porque achavam ter dormido, visto que não encontravam respostas para certas interrogações do filme. Podiam até ter dormido, o filme foi exibido das 2 às 4 da manhã, mas o próprio filme sonega essas informações. Não dá respostas porque nem todas as respostas podem ser dadas, não há respostas para tudo. Está característica do filme, para muitos um defeito, é ao meu ver um achado nesta obra de Gitai: seu caráter aberto e lacunar.

Voltando a Rebecca, do centro da trama no seu plano inicial, ela passa a coadjuvante e será a partir de então quase um peso a essa israelense que irá cruzar várias fronteiras até a Zona Franca do título, área da Jordânia quase na fronteira com o Iraque, para receber uma dívida de seu marido. E é na Zona Franca que aparecerá a palestina Leila cujo marido deve ao marido de Hanna e assim o trio estará composto, estando Rebecca em meio a briga pelo pagamento desta dívida, conflito que remeterá novamente a canção inicial e ao difícil, senão impossível, entendimento entre israelenses e palestinos. Novamente, várias outras histórias referentes às outras duas personagens serão citadas, mas não reveladas inteiramente. Novas lacunas que abrem várias hipóteses para o entendimento da vida dessas pessoas, mas que não são vitais ao que interessa ao filme que é a busca dessas personagens pelo seu lugar e pela sobrevivência em meio ao conflito.

Em “Free Zone” os personagens estão sempre em constante deslocamento e não têm, como acentuam nos diálogos, nunca, um chão firme. São nômades modernos, obrigados a mudar de lugar por causa de fatores externos a eles, como guerras, conflitos e novas demarcações de terras, ou porque não se encontram em sua terra de natal, caso de Rebecca. Essa busca pela felicidade, pela paz e pela terra, prometida, que nunca termina, reflete a impossibilidade de se chegar até ela, a utopia no sentido mais verdadeiro do termo, o não lugar.

Utópica também uma possível solução para o conflito Israel-palestino ou uma mediação para esse conflito, pelo menos parece ser esta a visão de Gitai. Ele termina o filme com Rebecca fugindo da interminável discussão de Hanna e Leila, correndo para um lugar qualquer em meio ao barulho de bombas e da possibilidade de novos atentados, pois não entende, e nem poderia entender ou participar, aquele embate que não lhe diz respeito. A cena final que remete ao plano inicial, mas agora com Rebecca em fuga, tem como música de fundo a mesma canção, o ciclo que se repete.

Corra para o cinema.
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