UM FILME FALADO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: França/Itália/Portugal
Direção: Manoel de Oliveira
Elenco: Leonor Silveira, John Malkovich, Catherine Deneuve, Stefania Sandrelli e Irene Papas
Duração: 96 min
Estréia: 22 de abril
Ano: 2003


Um passeio pela história das civilizações


Autor: Cesar Zamberlan

Amigos, ia escrever algo mais ordenado sobre o filme, a preguiça e o volume de coisas para fazer não deixaram. Segue um esboço de texto.

Vi "Um filme falado" na Mostra e gosto da estratégia do Manoel de Oliveira, de fazer com que o filme pareça uma viagem turística. Talvez, o melhor termo seja um inventário, inventário das "maravilhas da humanidade", inventário de histórias, mitos e ruínas que estamos deixando para trás.

Achei delicioso esse passeio da mãe-historiadora e da filha e as explicações didáticas que ela dava a criança. Assim como me maravilhei com as duas seqüências na mesa que muitos acharam chata. Fiquei imaginando o que aquelas quatro pessoas, cada uma falando a sua língua, representavam e acho que o cineasta quis ligar quatro momentos históricos - de novo, inventariando. Ou seja, o capitão norte-americano numa referência a quem (des)governa o barco-mundo nos tempos atuais, a francesa pragmática numa alusão à formação da burguesia e surgimento do comércio pós-revolução francesa, a italiana com um discurso apaixonado com referências ao Cristianismo e a grega falando de filosofia, tragédia e outros temas da cultura grega.

Já a seqüência seguinte com a inserção de um novo convidado à mesa reflete os tempos atuais, onde todos são obrigados a falar uma mesma língua para tentar se entender. Curioso que a partir dai, a conversa toma um rumo banal e cada um fala de si, de coisas pessoais, até materiais, deixando de lado as riquezas da sua pátria e língua-mãe. Essa pobre conversa termina com a seqüência final da bomba e aí a coisa pega.

Parece-me clara a alusão que estamos (nós também já que silenciosamente estamos no barco-mundo) deixando para trás a história (simbolizada pela professorinha), o futuro e a esperança (simbolizada pela menininha) e as nações periféricas com sua rica diversidade (aqui representada pelas duas portuguesas). Mas, não sei até que ponto - e quem levantou essa questão foi o Zaquir do Cinesesc - o velho não é muito maniqueísta e conservador na abordagem.

Explico melhor: num momento do filme, não me lembro qual agora, ele faz uma menção não muito elogiosa ao povo árabe e no final, maniqueísta ou não, pode estar dando combustível à política de terror morte-americana, ao colocar o terrorismo como perigo de uma catástrofe. Não vou me alongar mais do que me alonguei no assunto, preciso rever o filme e refletir melhor sobre o assunto.

O grande mistério do filme para mim e algo a ser decifrado é a questão da bonequinha que o comandante dá para a menininha. Afinal, é por causa da bonequinha que ela atrasa sua fuga do navio e boom! Será que o velho quer dizer que não adianta dar a mão ou se voltar para "ajudar" outras culturas porque não há diálogo ou chance disso dar certo ???

Hipóteses, elucubrações e viagens a parte, acho que o filme traz muitas metáforas a serem decifradas. O curioso nisso tudo, é que muitas vezes o cineasta afirma que não quis dizer nada disso e que nós espectadores temos uma imaginação muito fértil. Por essas e outras que eu acho que o filme, assim como as outras obras de arte, são na verdade aquilo que projetamos nelas. E que mais ricas serão à medida que abram espaço para que projetemos nossas experiências nela.

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