SOY CUBA - O MAMUTE SIBERIANO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Vicente Ferraz
Elenco: Documentário
Duração: 90 min.
Estréia: 13/01/2005
Ano: 2005


Soy Cuba – O Mamute Siberiano” - A história de uma alucinação bolchevique nos trópicos


Autor: Leonardo Mecchi

Um documentário normalmente é admirado pelo público por um entre três fatores: a temática de que trata – a despeito das falhas do documentário enquanto linguagem (“Doutores da Alegria”, por exemplo) –, a qualidade e coerência estrutural do filme propriamente dito – mesmo que sua temática pudesse, em um primeiro momento, não parecer tão interessante (“Edifício Master”) –, ou por um equilíbrio entre os dois fatores (“Nelson Freire”). “Soy Cuba – O Mamute Siberiano”, de Vicente Ferraz, enquadra-se na primeira categoria: conta a fascinante história do filme “Soy Cuba”, de Mikhail Kalatozov, primeira e única co-produção entre Cuba e a extinta União Soviética, mas de uma forma lacunar e padronizada.

Em 1º de janeiro de 1959 as forças lideradas por Ernesto “Che” Guevara e Camilo Cienfuegos chegavam a Havana e conflagravam a vitória da Revolução Cubana. Intelectuais de todo o mundo começaram a aportar na ilha – Godard, Chris Marker, Cesare Zavattini, Joris Ivens –, ávidos por registrar a revolução socialista em pleno curso em uma ilha tropical. As mudanças estendiam-se a todas as áreas, principalmente a cultural, e nesse sentido o novo governo criou o ICAIC – Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos – para criar as bases de um novo cinema cubano, popular e revolucionário. Três anos depois a União Soviética, uma das maiores interessadas no sucesso e difusão da Revolução Cubana, envia para Cuba um de seus grandes cineastas, Mikhail Kalatozov (que poucos anos antes havia levado a Palma de Ouro em Cannes pelo filme “Quando Voam as Cegonhas”), com a missão de realizar o que seria um grande poema épico, uma ficção dividida em quatro atos, em homenagem à Revolução, que iria maravilhar e, quiçá, converter o mundo para as benesses do socialismo. Kalatozov ainda levou para a ilha seu colaborador usual Sergei Urusevsky como diretor de fotografia e o grande poeta russo Yevgeni Yevtushenko como roteirista, além do que de mais moderno havia em termos de tecnologia, incluindo filmes infravermelhos – até então exclusividade do exército soviético.

Foram dois anos de imersão na cultura cubana, de gastos e privilégios astronômicos, e de filmagens que resultaram em algumas das seqüências mais impressionantes da história do cinema. Impossível por exemplo, mesmo para o espectador mais leigo, não ficar completamente estarrecido diante da engenhosidade de seqüências como a do funeral do estudante (incluída neste documentário). Apesar disso, o filme foi um retumbante fracasso, tanto em Cuba (onde foi acusado de ser uma visão estereotipada e falsa dos cubanos, numa polêmica semelhante à que envolveu “Orfeu Negro”, de Marcel Camus, aqui no Brasil) quanto na União Soviética, onde a ênfase artística do filme e seu retrato atraente da Cuba pré-revolucionária ia contra os interesses políticos daqueles que o financiaram. O filme foi prontamente arquivado e só recebeu o merecido reconhecimento mais de 30 anos depois, quando Francis Ford Coppola e Martin Scorsese o resgataram do ostracismo e o disponibilizaram para o deslumbramento de crítica e público.

O documentário de Vicente Ferraz utiliza-se da clássica estrutura de entrevistas e imagens de arquivo (garimpadas nos acervos do ICAIC) para tentar retratar a história dessa produção, de sua idealização ao reconhecimento tardio. A instigante história desse filme poderia conduzir a uma série de reflexões interessantes, como as diferenças culturais entre os dois povos (russos e cubanos) e como isso influenciou não apenas na produção do filme mas no próprio desenvolvimento do socialismo nos dois países, a possibilidade de se traçar um paralelo entre a história do filme e a da própria revolução cubana, ou ainda o eterno debate sobre a relação entre arte e política e como essa relação se alterou ao longo do tempo (influenciando, inclusive, na percepção do próprio filme), mas o documentário passa ao largo dessas questões.

Outras deficiências do documentário incomodam, como a opção por uma narração ostensiva em primeira pessoa, como se a redescoberta desse clássico tivesse sido obra de Ferraz, e a limitação dos depoimentos, que nunca vão muito além da impressão dos poucos entrevistados sobre “Soy Cuba” (todos ligados, de uma forma ou de outra, à sua produção), no que o tempo também teve sua culpa, devido à morte, entre 1973 e 1974, do diretor Kalatozov, de sua esposa Belka (que trabalhou na produção do filme como assistente de direção) e do diretor de fotografia Urusevsky, que poderiam dar depoimentos muito mais interessantes e reveladores sobre a obra.

Fica, após a projeção, a saudade de um tempo em que, como diz Ferraz, “o cinema era um fenômeno social e político de grande importância” e o sonho de um outro mundo ainda era possível. Fica também uma imensa vontade de (re)ver a obra genial de Kalatozov, corroborando a declaração de um dos entrevistados do documentário: “os governos são esquecidos, mas as obras-primas permanecerão”. E isso, ao final, é o que importa.
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