EXTREMO SUL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Mônica Schmiedt e Sylvestre Campe
Elenco: Documentário
Duração: 92 min
Estréia:
Ano: 2004


Os dois extremos de documentar


Autor: Érico Fuks

Não há dúvidas de que existem dois filmes distintos dentro de Extremo Sul. A começar pelos diretores. Mônica Schmiedt foi produtora executiva dos sulistas filmes de época Anahy de las Misiones, O Quatrilho, entre outros. Este é seu segundo filme como diretora e produtora. Já Sylvestre Campe é alemão e vive no Brasil há mais de uma década. Passou sua adolescência com a família em um veleiro, viajando ao redor do mundo e ajudando o pai a operar o som e a câmera ao documentar a viagem. Hoje dirige e fotografa filmes de aventura e é um especialista em filmagens em montanhas de gelo e rocha. Esta é sua segunda experiência na direção e fotografia para cinema.

Extremo Sul reúne traços claros da trajetória profissional de ambos. É uma mistura do registro histórico de uma expedição colonizadora, condensado num clima de aventura e esportes radicais que permeia todo o filme.

O documentário acompanha cinco alpinistas profissionais em uma expedição ao Monte Sarmiento, no extremo sul da Patagônia chilena (Terra do Fogo). Uma região de difícil acesso, conhecida por sua baixa temperatura (de 10ºC a –5ºC) e pelos riscos que oferece. Seus cumes só foram escalados três vezes, sendo que seu cume principal foi atingido apenas uma única vez, em 1956. Em março de 2003, após 13 dias de navegação, o grupo formado pelos brasileiros Barretta e Nativo, pelos argentinos Tato e Walter e pelo chileno Julio, consegue montar um acampamento em Ilha Grande da Terra do Fogo.

De radical mesmo, o filme exibe muito pouco. Há certos experimentos de câmera, como mudanças repentinas de enquadramentos nos rostos dos esportistas, cenas paisagísticas nítidas intercaladas com imagens saturadas em planos fechados, variações cromáticas no decorrer da projeção, entre outras “ousadias”. Mas no conjunto, Extremo Sul mantém uma linguagem cinematográfica conservadora, procurando apenas fazer uma radiografia passiva da missão bandeirante.

Na primeira metade, o filme causa um certo cansaço a quem não é fã de esportes e práticas do gênero. O tom predominante deste trabalho é o de videoclip: música de fundo em alto e bom som, contornando os depoimentos fragmentados dos alpinistas, principalmente de Nelson Baretta “Pepe”, responsável por capitanear a gélida tarefa. O filme centra em captar o “making of” da maratona montanhesca: os preparativos iniciais, as expectativas do grupo, trazendo também algumas informações técnicas que não dialogam muito com o público leigo no assunto. Lembra bastante aqueles programas esportivos dominicais e tem também aquela aura “trip clip” de Mochilão MTV e quetais.

Entretanto, é na segunda metade que Extremo Sul fica mais saboroso. Os hiatos produzidos são mais um mérito do que um problema. Por estar muito próxima, a câmera revela de perto os ruídos entre os integrantes da patota. A “união” que consagra o grupo passa a ser apenas uma formalidade. E aí o documentário aproxima-se um pouco das premissas de um reality show, onde as diferenças é que conduzem a trama. Todas as rupturas lingüísticas do começo, como a tela dividida em quatro, até então meros exercícios de montagem, passam a fazer sentido. O documentário provoca e questiona, ainda que na condição de voyeur, o individualismo em detrimento do conjunto. O que era pra ser uma equipe coesa passa a ser apenas a soma das partes.

Essa mudança tonal torna-se fundamental. O filme deixa de assumir o compromisso da glorificação, de estar colado à conquista pioneira de território (imagem servindo de comprovante fiscal, como nos áureos tempos do homem pisando na Lua). Nesse ponto, Extremo Sul passa a ser o manuscrito da conivência, e se mantém coerente com essa nova proposta. Como se não bastasse, há ainda momentos irônicos no filme, como o acréscimo de imagens documentais de expedições anteriores, bem-sucedidas, embora realizadas por um número bem menor de aventureiros. O arquivo histórico projetado de um inglês alcançando seu objetivo mostra que ainda há um abismo muito grande entre o sucesso da União Européia e o desmantelamento causado por brigas internas do Mercosul.

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