SE EU FOSSE VOCÊ:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Daniel Filho
Elenco: Tony Ramos, Glória Pires, Thiago Lacerda, Danielle Winits, Glória Menezes, Lavínia Vlasak, Maria Gladys e Lara Rodrigues.
Duração: 108 min.
Estréia: 06/01/2006
Ano: 2006


"Se eu fosse você" - não tema, seu jantar não será poluído


Autor: Cid Nader

Tem filmes que não dizem ao que vieram, são ruins mas não desprezíveis - pois não causam males interiores - e que, evidentemente, tem como proposta principal angariar a simpatia de um público de gosto menos exigente - perigosa tal afirmação -, aquele que vai ao cinema para ver caras conhecidas das novelas, interpretando personagens que nunca teriam a ousadia, ou coragem, de jogá-los - o público - em terreno mentalmente pantanoso, de areia movediça para a alma. Personagens que, no máximo, fizessem mal a um bandido mal comportado - na vida irreal, lógico; afinal os maus merecem punição, não? É o caso de "Se Eu Fosse Você", de Daniel Filho, com seu jeitão de novela ou caso especial da TV Globo, que aposta, indubitavelmente, no carisma dos veteranos Tony Ramos e Glória Pires para atrair a simpatia e a acorrência do fiel público dos "imbroglios" televisos; público que carrega a certeza de um jantar tranqüilo, com o espírito em relativa paz, pois: "tudo aquilo não passa de ficção, né!".

Já comentei, em outra ocasião, da presença cada vez mais constante e ativa da Globo Filmes no processo de sobrevivência do cinema nacional. Esse braço das organizações do falecido Roberto Marinho, tem sido uma espécie de escoadouro de parte da produção nacional. O que incomoda, porém, é a interferência no processo de realização cinematográfica, algo que fica evidente pelo resultado da maior parte dos trabalhos que abriga. Parece que por determinação superior - a grana que move e financia -, o formato "televisão" tem que ser balizador para os produtos que se criem sob sua chancela, numa evidente demonstração de não credibilidade na capacidade de nossos "fazedores" de filmes para cinema. Como se Glauberes e Sganzerlas servissem apenas como referência em papos cultos de novelas, ou em rápidos espaços nos noticiosos.

Há excessões, obviamente. Mas mesmo essas só conseguem sobrevida às determinações superiores, pelo fato de, Jorge Furtado ou o pessoal da Conspiração, por exemplo, fazerem parte dos quadros profissionais ou afetivos da grande organização.

Daniel Filho - cria e criador - envereda por vezes pelo mundão da tela grande. Aposta nessa sua nova investida em algo que, com boa vontade, poderia remeter ao teor meio "comédia de costumes" dos tempos da Atlântida. Para dar algum tipo de ignição razoável ao proposto, inicia o filme citando uma raríssima conjunção astral como momento ideal em que situações jamais imagináveis e pouco naturais se estabeleçam, elevando o "incrível" ao patamar da mais pura naturalidade do cotidiano. E então faz-se a luz. O espírito de Cláudio (Tony Ramos) entra em Helena (Glória Pires), e o contrário também acontece. Daí, está estabelecido o caminho a ser percorrido pela película.

Há momentos de tentativas interessantes quando o diretor não fixa as possibilidades do filme somente nas dificuldades físicas da adaptação aos novos modelos anatômicos - se bem que em tais situações o filme cresça, pela qualidade das interpretações do casal central, principalmente Glória. Mas nunca vai mais a fundo - mesmo que só um pouquinho - e sustenta essa sua relutância por uma melhor depuração, escorando-se na idéia de comédia, o que não criaria obrigações na procura de uma melhor qualidade.

"Se Eu Fosse Você" tem um ruim tom farsesco, que aliado à edição e soluções técnicas televisivas, impossibilita-o como bom produto para cinema. Assume, então, sua opção por um público já pré-definido, que o verá exaltado em diálogos incorporados às tramas novelescas de plantão e comparecerá às salas como programa pós praia, nesse nosso verão brasileiro.
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