Se Beber Não Case! 2:


Fonte: [+] [-]
Original: The Hangover Part II
País: EUA
Direção: Todd Phillips
Elenco: Bradley Cooper, Zach Galifianakis, Justin Bartha e Ed Helms.
Duração: 102 min.
Estréia: 27/05/2011
Ano: 2011


Mais irreverente; mais complexo


Autor: Cid Nader

Se Beber Não Case!2 é filme que já tem caminho bem demarcado atrás de si na história da cinematografia norte-americana recente. São filmes que vêm com a marca registrada do humor baseado fortemente em clichês de comportamento masculino – no sentido de machista, homofóbico e outras segregações mais -, mas que também ganham fama, têm sucesso e muitas virtudes justamente por não vestirem a jaqueta justa, desconfortável e artificial do “politicamente correto”. Na maior parte dessas produções a risada é arrancada aos borbotões, tanto de públicos realmente machistas (geralmente jovens de uma classe média institucionalizada), quanto de defensores de cinema de qualidade. Por um lado (o dos machistas), é muito fácil imaginar as razões do agrado; por outro lado (o dos admiradores de bom cinema), o que pareceria difícil imaginar por parte de gente mais intransigente, fica fácil quando se nota com um mínimo de atenção que as realizações são uma espécie de “arma” arranjada pelos realizadores, justamente para denunciar e fazer entender o quão cretino são os “rituais” repetidos com tinta forte na tela – num fato que desmontaria sem dó nem piedade as razões que atraem o primeiro grupo de admiradores citados.

Mas há uma coisa que os admiradores confiáveis – os cinéfilos – não percebem, como fator enfraquecedor na maior parte dessas produções: o acomodamento final em quase todas as situações, onde os “anarquistas”, os “desconjuntadores”, acabam tendo de ceder, e, pelas mãos de quem os imaginou desafiando regras. Em quase todos esses filmes vinga no final o caráter da instituição mais respeitável (justamente aquela de onde saem os odientos, os racistas, os “normais”) americana que é a família intitucional. Invariavelmente, casos acabam em casamento, “porras loucas” acabam se adequando ao sistema, e, quando não, é porque uma das partes envolvidas era muito “má” e potencial ameaça ao bem-estar e segurança do lar almejados interiormente. Quero dizer que, apesar das virtudes artísticas – sim, a maior parte desses filmes é tremendamente bem desenhado tecnicamente -, e das justas alfinetadas desferidas contra os de cabeça pequena, ao final, lá na hora de acertar as contas, parece que a justa rebeldia tem que ceder um tanto de seu espaço arranjado em favor da justeza e limpeza de uma sociedade absolutamente amparada no lar e nos bons costumes.

No caso desse filme dirigido por Todd Philips, acontece de tudo isso citado um tanto, e talvez com mais potência – para um lado e para o outro. É forte na pegada que desafia o lenga-lenga aceitado socialmente que permite ao homem (o macho da espécie) uma escapada oficial na tal “despedida de solteiros”, ao fazer com que a turma de homens envolvidos na tal situação percam a cabeça de modo bem complexo e quase incontornável – eles vão para a Tailândia (e aí o filme generaliza e escorraça qualquer bom senso em relação ao que pensar do país e de seus habitantes: mas isso pode ficar por conta do politicamente incorreto utilizado como função de guerrilha, vá lá), bebem, são drogados e perdem a tal ponto a noção, que o trabalho ganha por muitos instantes ares de bad-trip, sem que se vislumbre bons destinos.

Situações bizarras pra cá, macaquinho (dando um verdadeiro showzinho) pra lá; tatuagem no rosto do dentista (o mesmo que perde um dente no anterior) surgindo como que do nada, para o outro; irmão da noiva corretinho e queridinho do papai machista virando o centro das preocupações... Vai o filme na toada comum às boas produções do gênero, arranca boas risadas e suspiros de tensão em razoável quantidade, mas se perde...

Bem, até aqui reproduzi minha crítica do “Se Beber Não Case” (o primeiro filme), trocando o tigre pelo macaquinho, o dente perdido pela tatuagem, e Las Vegas pela Tailândia (mais especificamente Bangkok, filmada de maneira espetacular em sua diversidade e caos). A partir desse “se perde” onde parei, mudo radicalmente minhas impressões, entendendo que desta vez, mesmo se considerarmos que o final seja um tanto careta e um tanto rendido ao aguardado bom comportamento norte-americano (mesmo os Farrely se rendem nesses momentos), a sensação que fica é de que se foi mais a fundo nas questões comportamentais cutucadas, houve um evidente melhor desenvolvimento do personagem de Alan (Zach Galifianakis), o que impôs ao filme um real centro de catalisação e expansão dos atos que deflagram as situações,mas fazendo perceber que esse centro tem nuances e intimidades (que perfazem os traços de sua personalidade) mais complexas do que um simples “joga o maluco aí de novo que ele se torna razão fácil para tudo existir”.

Se Beber Não Case! 2 não se encerra sob o signo do falso politicamente incorreto no seu desfecho atuado, estendo-se para um desfilar de fotos que elucidam a bad-trip (não é novidade), e deixando nessas últimas imagens as sugestões que o elevam a um patamar mais autenticamente tresloucado. Acho um tanto estranho o exagero de rancor de alguns amigos na saída da cabine (com taxações baratas sobre o espírito “juvenil machista” do filme), caindo eles aí na tal situação que poderia destruir o trabalho, se adotada por ele, que é a de pensar somente nos “bons modos”, no correto, esquecendo-se de que remexer os estereótipos vale a empreitada. E quase concordava com uma amiga crítica que se queixava de o filme ser “muito do anterior” (quase que uma repetição total) após iniciar a leitura de meu texto sobre ele, mas fortaleceu-se a certeza de que num dado momento esse atual se revela maior, mais alfinetador, mais certeiro: há semelhança sim, mas na boa qualidade, na irreverência, na coragem e, principalmente, porque incomoda diversas correntes.

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