SOLDADO ANÔNIMO:


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Original: Jarhead
País: EUA
Direção: Sam Mendes
Elenco: Jake Gyllenhaal, Jamie Foxx, Peter Sarsgaard, Lucas Black, Chris Cooper, Dennis Haysbert e Rini Bell.
Duração: 127 min.
Estréia: 06/01/2006
Ano: 2005


"Soldado Anônimo" - a favor ou contra?


Autor: Cid Nader

Sam Mendes, surgiu para o grande público há poucos anos com seu "Beleza Americana", arrancando elogios entusiasmados de parte da crítica - principalmente aquela "fechada-em-si-mesma" crítica americana (apesar de inglês filmou, então, os Estados Unidos) -, na mesma proporção em que angariava uma coleção de narizes torcidos ante uma obra supostamente marginal e arrojada. O tempo passou, "Beleza Americana" já passou na televisão e a imagem de pequeno embuste se concretizou - não um grande embuste, um pequeno mesmo, criado mais pelo entusiasmo dos "elogiadores" do que pelo próprio Sam.

"Soldado Anônimo" é a bola da vez jogada por Mendes; para quem quiser jogá-la. E talvez seja essa mesma a definição, pelo que pude apurar, ao ver o filme: um jogo, trata-se de um jogo. Ele infesta a tela com situações muito soltas, isto é, como se jogadas ao acaso, muito sem definição de seu posicionamento dentro do tema adaptado de obra literária, o que até poderia significar qualidade, ante a hipótese de que a real intenção é de nos fazer pensar; sem entregar uma obra já mastigada. Mas no caso do filme aqui, todas essas indefinições me pareceram mais um: "ficar em cima do muro quanto a um assunto polêmico, virem-se vocês mesmos pois minha parte já está feita". A mim pareceu que ele joga um tanto deslealmente - no mínimo na retranca - com o público nesse seu novo trabalho.

Conta a história de rapaz, Anthony Swofford (Jake Gyllenhaal), que alista-se para lutar na guerra do Iraque - a primeira, a tal da Tempestade no Deserto, declarada por George Bush, pai do atual belicista de plantâo -, mas que, aparentemente, opta por tal destino por uma tradição familiar em participar do exército, e não como opção individual; pensada.

Essa falta de definição dos reais motivos que levaram "Swoff" à guerra, é explorada por viés cauteloso - ou covarde, ou enigmático - demais na história contada a nós por Sam Mendes. E essa é uma das razões para comparar o filme a um jogo. Ele poderia optar por um diálogo mais aberto com o espectador. Mas o "problema" se estende e toda a história transcorre no tal clima de indefinição.

Usa muitas referências: no início com um sargento totalmente copiado de "Nascido Para Matar", mais à frente com o uso de A Cavalgada das Valquírias, numa alusão/homenagem(?) a "Appocalypse Now". Não consegui captar a real intenção de tais citações - se homenagem a trabalhos declaradamente anti-bélicos, ou simplesmente citar por citar, fazendo o joguinho do cineasta culto. Os rapazes que esperam o combate poderiam ser definidos como garotos sem a real concepção do que é uma guerra, do que é enfrentar um outro ser humano disposto a matar - fato invocado a certo momento, quando um dos soldados percebe que sua função não passará da de vigiar os importantíssimos campos petrolíferos. Sam utiliza demasiado tempo na demonstração do comportamento adolescente/macho dos garotos,que têm hormônios saltando pelas ventas, o que leva a atitudes semelhantes às de machos em busca de briga para conquistar a fêmea ou o respeito dos outros.

Mas como jogo é para ser jogado, Sam Mendes me coloca em dúvida, num outro momento de citação - novamente "Appocalypse Now" - no qual mostra como o exército condiciona mentalmente suas crianças, num momento pré-embarque em que apresenta para seus futuros fuzileiros trecho do filme de Coppola, no qual helicópteros sobrevoam aldeia bombardeando-a, levando ao delírio a bélica assistência, e cortando a exibição no momento de maior violência, induzindo os soldados a uma concepção diversa da real intenção da obra.

O filme não foi bem nos Estados Unidos. Ponto a favor de Sam Mendes, pois é sabido o notório apreço das platéias ianques por filmes de violência gratuita e vitória certa. Mas também é possível imaginar, que a indefinição do diretor, com sua maneira pouco impositiva de levar a trama, seja o motivo de possíveis fracassos. É bem realizado, tecnicamente, tem momentos visuais que assusadores e de primoroso acabamento, por exemplo, quando cria um deserto que pode remeter a um inferno e onde a chuva é negra. Seria Sam Mendes o próprio criador da idéia de um mito embusteiro que consegue nos enredar quando está apenas jogando, ou não?
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