2046 - OS SEGREDOS DO AMOR:


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Original: 2046
País: China/França/Alemanha/Hong Kong
Direção: Wong Kar-wai
Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Gong Li, Takuya Kimura, Faye Wong, Zhang Ziyi, Carina Lau, Chang Chen e Maggie Cheung.
Duração: 130 min.
Estréia: 06/01/2006
Ano: 2004


"2046" - o cinema na melhor acepção do termo


Autor: Cid Nader

Não há dúvida alguma quando se afirma ser o cinema a arte do diretor. Arte onde, ele, onipresente e onipotente, tem o poder de impor toda a sua conceitualização sobre o tema abordado, determinando formatos, velocidades, estilo e ideais, sem qualquer tipo de imposição ou ingerência externa. Ao menos deveria ter tal direito ditatorial de comandar o destino se sua obra - o que não acontece, principalmente quando se tem por "marchand" o poderio de um grande estúdio, que visa acima de tudo o lucro certo, correndo atrás do público menos exigente, menos culto.

Quem conhece Wong Kar-Wai sabe de seu apreço pelo cinema de estética elaborada, combinada a momentos musicais pertinentes à época em que se passa a trama. Ele tem o olhar do artista autêntico e procura conceber seus filmes dentro de parâmetros visuais que venham a funcionar como elementos tão importantes como os atores, por exemplo. Age de maneira auto-centrada, passando por cima do "bom senso" imposto por seus pares; graças a Deus.

Cinema é uma combinação de atuação, música e visual (figurinos e cenografia). Aliado a isso o roteiro, de particular - mas não a mais essencial - importância e a montagem. Na montagem, na mesa de edição, nos momentos de cortar e costurar as imagens é que aparece a assinatura inconfundível de Kar-Wai e aí partimos na direção do que tentei explanar no começo do texto, quanto à necessidade de se impor, do diretor sobre sua obra. Se pudermos nomear o cinema, tomando esse princípio de que a arte cinematográfica é seu autor, o nome mais apropriado seria - hoje em dia -: Wong Kar-Wai.

Tudo que à primeira vista chama a atenção em suas obras, ganha aditivação pelo seu método de trabalho. Ele filma, filma muito, de forma linear, mas comparece com seu diferencial, com seu modo à Deus de agir na hora em que, com todo o material filmado em mãos, senta-se, desconstrói e remonta a película, à sua maneira, com minúcias e preciosismo, criando então, e só então, seu modelo definitivo. À sua imagem e semelhança. Mas será que, infalível como um criador, aceita sua cria como questão acabada, definida, imutável, perfeita?

Dizem que ele retoma filmes que já estão em exibição para mexidas, pequenas modificações; um inconformado, um egocêntrico, um criador - garanto, do fundo da alma, que vi duas versões diferentes de "Amor à Flor da Pele", no espaço de poucos dias e na mesma sala de cinema, aqui, em nossa São Paulo. E isso diferencia o grande artista, o verdadeiro diretor de cinema, dos outros. Além do mais, não tem medo de dar forma muito particular e peculiar às suas obras, carregando-as de um senso visual, ou estético, que beira o perfeccionismo - o que, de maneira alguma, atenua ou sobrepuja a importância do contexto "literário", que é de se desejar, quando procuramos por produtos de excelência. É tremenda besteira classificar seus trabalhos como algo recheado de "fru-frus", como ouvi de pessoas próximas.


"2046" poderia ser considerado como uma espécie de continuação de "Amor à Flor da Pele" - na minha modesta opinião, o maior filme romântico das últimas décadas, no qual o diretor atinge o clímax em sua carreira, quando consegue manipular sentimentos e reações, em competentíssima demonstração de domínio de seu mundo ficcional. Tony Leoung - ator fetiche de Wong Kar-Wai - torna-se escritor, como sonhava na película anterior, e escreve história que fala da busca de memórias, criando o ano de 2046, número que tem muitos significados em suas recordações, extrapolando as coincidências variadas, quando buscadas de "Amor à Flor da Pele", acabando, inclusive, por invadir o mundo da política, numa alusão a data decisiva para a vida de sua nação. O clima de primor visual continua presente a todo vapor, e a história se mostra mais intrincada e refinada do que nunca, com texto brilhante e sinuoso a percorrer e conduzir o espectador pelos meandros da, nem sempre tão simples, busca amorosa. Para nosso deleite recheia a tela de deusas de olhos puxados e cabelos negros, que imprimem, com seu andar gingado, uma sutileza sensual e elegante que só ele parece conseguir no cinema atual. E faz de Leoung personificação de nossos desejos e de nossas vontades; um mito/espelho para nós, pobres homens ortais.

Em "Amor à Flor da Pele" o amor era lúdico, quase puro, contido. Em "2046" ele transborda, comparecendo forte e determinante; visceral e importante. Cheio de "fru-frus" que, longe da superficialidade sugerida por alguns, impõe classe e qualidade à manifestação artística - criada e conduzida, mesmo que ditatorialmente, por um autor único -, que afinal de contas é o cinema.

Wong Kar-Wai, um dos grandes diretores da atualidade, exerce com todo o direito e capacidade essa faceta de dono de sua arte.
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