A PASSAGEM:


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Original: Stay
País: EUA
Direção: Marc Foster
Elenco: Ewan McGregor, Naomi Watts, Ryan Gosling, Elizabeth Reaser e Noah Bean.
Duração: 99
Estréia: 30/12/2005
Ano: 2005


“A Passagem": Apenas de passagem


Autor: Leonardo Mecchi

“A Passagem”, mais recente filme de Marc Forster, remete a obras como “Cidade dos Sonhos”, “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e “Spider”, tratando também ele de temas como os sonhos, a definição de identidades e os limites – nem sempre claros e bem definidos – entre o real e o imaginário, a razão e a loucura.

Diretor dos filmes “Em Busca da Terra do Nunca” e “A Última Ceia”, Forster busca criar, neste thriller psicológico sobre um psiquiatra que tenta salvar a vida de um paciente suicida, um clima onírico e atormentado desde o primeiro minuto de projeção, extrapolando para as imagens o processo de questionamento da realidade pelo qual passam os dois personagens principais – o psiquiatra Sam Forster (Ewan McGregor) e o jovem artista plástico Henry Lethem (Ryan Gosling). Para deixar claro ao espectador que se trata de um ambiente onde a lógica e a razão não ditam as regras, o diretor utiliza todo um arsenal de recursos disponíveis, ora de maneira sutil, ora exacerbada: quebras de eixo, imagens deformadas, pontos de vista fragmentados, faux raccords, elipses temporais, uma trilha de fundo constante de ruídos e vozes, cenários escherianos e uma montagem e direção de arte que buscam quase sempre o efeito de um trompe l’oeil.

Entrando logo de início nesse ambiente e no conflito que pretende retratar, sem muito tempo para ambientação e para o desenvolvimento das relações entre os personagens, o diretor assume uma aposta arriscada: ou consegue que o espectador baixe a guarda e se entregue a esse estado alterado de percepção da realidade nos primeiros 15 minutos do filme ou o perde para sempre. O interesse causado pelos diversos recursos mencionados faz com que a balança penda, num primeiro momento, para o lado do diretor. Mas conforme a história avança, a estrutura montada pelo filme começa a dar sinais de sua fragilidade.

Sabemos que estamos diante de uma “pegadinha” e que basta descobrir a informação que o diretor está nos escondendo para teremos a resposta aos acontecimentos aparentemente inexplicáveis que observamos. E para um filme que se baseia no questionamento de nossa percepção de mundo, a exposição desse artifício é fatal. Pois Forster é um daqueles diretores que ainda necessitam de muletas e que agem de maneira quase desonesta, escondendo do espectador uma surpresa e tornando-a a razão de ser definitiva do filme, com medo de que sem essa carta na manga não consiga manter o interesse do público e que toda a estrutura moderna e esperta que criou venha abaixo, por não ter conteúdo que a sustente. E essa surpresa, como é de praxe, só será revelada nos últimos minutos do filme, em um final complacente que traz para o espectador a explicação racional esperada para tudo o que aconteceu, tranqüilizando-o: “o mundo ainda é o mesmo com o qual você está acostumado e tudo está sob controle”.

Marc Forster demonstra neste filme possuir inegável habilidade na criação de climas e ambientes, mas também que lhe falta a coragem de dar um passo além e radicalizar sua proposta, que é exatamente o que diferencia os grandes cineastas como David Lynch, que se liberta completamente da necessidade da lógica e da razão em um filme genial como “A Estrada Perdida”, ou David Cronenberg, que desenvolve análises profundas sobre a psique humana – como no caso de “Spider” – exclusivamente através da complexidade e mistérios próprios de nossa mente, sem a necessidade de truques de roteiro.


Notas

1. M. C. Escher (1898-1972) - artista holandês conhecido por suas pinturas que tendem a representar construções impossíveis, explorações do infinito e padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes.

2. Trompe L'Oeil - Pintura que produz, através de artifícios de perspectiva, ilusões de ótica.

3. Faux Raccord - Técnica de montagem descontínua, onde se realiza um corte de uma cena para um outro momento da mesma cena; semelhante visual ao salto da agulha num disco de vinil.

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