APENAS UM BEIJO:


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Original: Ae Fond Kiss
País: Reino Unido / Bélgica / Alemanha/ Espanha /Itália
Direção: Ken Loach
Elenco: Atta Yaqub, Eva Birthistle, Ahmad Riaz, Shamshad Akhtar, Gizala Avan e Shabana Bakhsh.
Duração: 103
Estréia: 23/12/2005
Ano: 2004


"Apenas um Beijo" - Ken Loach menor


Autor: Cid Nader

O cineasta Ken Loach permanece sendo um dos únicos em atividade a fazer das questões políticas, das mazelas sociais ou das desinteligências religiosas e culturais situações/objetivos de filmografia - pensando bem, engajado da maneira que é, nem o sumido Costa-Gravas. Engajado e panfletário. Adjetivações que lhe caem sob medida e que são usadas por seus defensores e também pelos detratores com a mesma veemência, porém com sorrisinhos e bater-de-pés como manifestações opinativas que se diferenciam por nuances.

Particularmente, enfileiro-me entre os que sorriem de prazer e batem os pés com entusiasmo ao final de suas investidas. Normalmente me comprovam que o uso midiático do formato "cinema", também, é bastante válido e viável como opção de denúncia e de não esquecimento. Carrego na memória belos momentos que têm contornos mais interessantes ainda pela delineação especificamente reforçada por Loach, quando insiste no uso de uma mistura de atores e não atores como opção em um cinema que requer força no momento de passar credibilidade. E atuações menos rigorosas, de caras menos conhecidas, acabam por criar uma química interessante que angaria a empatia do público - por mais estranho que possa parecer.

Não imagino a bela e emocionaNte cena - uma das mais comoventes vista por mim - da revolucionária morta em combate, que chega à aldeia de origem sobre uma carroça, pranteada por pais, vizinhos e parentes, se encenada por atores conhecidos, sem aquelas feições fortes e expressivas dos camponeses espanhóis ("Terra e Liberdade"). Nem o hilariante momento em que barrigudos, baixinhos ou carecas, desprovidos da sorte - desempregados ou vivendo de bicos -, adentram triunfalmente, e com a certeza total de serem os melhores, um campo de futebol, envergando - para estupefação e temor dos adversários - camisas da seleção brasileira campeã mundial de 1970.

Só que a vida continua e pequenos tropeções podem atrapalhar caminhadas seguras, feitas com a cabeça erguida. E é o que acontece com "Apenas um Beijo".

Conta a história de imigrante paquistanês, morador de Glasgow, que se apaixona pela "branca" professora de piano da irmã mais nova; sendo correspondido. Ken Loach não facilita - como se poderia pressupor - buscando a obviedade da repulsa ao relacionamento vindo do lado europeu da questão. Seria maquinar trama fácil e simplista. O não, o inconformismo, vem de parte da família paquistanesa, orgulhosa de suas origens e das tradições - principalmente aquela que trata do assunto: casamento arranjado e pré-acordado.

O diretor é feliz ao retratar a necessidade de aceitação que se faz imperiosa à comunidade estrangeira e seus membros, evidenciando símbolos e atitudes adotados para sua aceitação na fria ilha européia. Mas usa mão pesada ao criar situações novelescas, carregadas no dramalhão, nas intrigas, nas arapucas que são armadas, no chororô e no rancor exagerado da família do jovem - mão pesada que acaba por ativar a armadilha que carrega em si o estereótipo, o maniqueísmo, a visão excludente da mão única que não admite possibilidades divergentes. Aliás, maniqueísmo do qual é acusado em outras obras por seus desafetos.

Mão pesada que compromete uma trama bem fotografada e bem interpretada, razoavelmente bem musicada - quando a música é executada em cena - e melosamente repetitiva - quando tema.

P.S.: parece que para equilibrar um pouco a balança das intransigências, Loach insere no filme, a um dado momento, um padre católico, saído dos tempos da inquisição, de reações amedrontadoras, irascível e tosco, o que não combina muito com o perfil mais liberal e pés-na-Terra dos religiosos da Ilha.
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