MARIA BETHÂNIA - MÚSICA E PERFUME:


Fonte: [+] [-]
Original: idem
País: França / Suiça
Direção: Georges Gachot
Elenco: Documentário
Duração: 85
Estréia: 23/12/2005
Ano: 2005


Bom até para aqueles que não são fãs da cantora


Autor: Cid Nader

É muito bom saber que há gente no mundo capaz de realizar um documentário com a velha e boa película - deixando de lado, por um tempo, as ágeis e superficiais câmeras digitais -, com suas imagens aveludadas, de profundidade sensível ao olhar, cores elegantes e figuras não deformadas. Georges Gachot teve a "ousadia" de levar "Maria Bethânia" às telas com um processo de finalização superior ao que se tem visto ultimamente, quebrando um pouco esse monopólio cada vez mais abrangente e nefasto da projeção digital. Nefasto, ao menos, em termos da qualidade apresentada a nós aqui do Brasil, já que, obviamente, seria saudável apoiar toda e qualquer maneira de diminuição nos custos da execução cinema, desde que tal economia se fizesse sentir na ponta final da cadeia, o bolso do cinéfilo/consumidor (parodiando os entendidos no assunto economia).

Confesso que não sou daqueles que me moveria em busca de um espetáculo ou CD da cantora baiana. Não faz meu estilo. Mas o trabalho que vemos projetado na telona, além de uma qualidade técnica superior, revela-nos uma figura exigente, profissionalíssima, que cobra muito de toda a sua equipe - tanto em estúdio como em processo de montagem de show. Tal cobrança faz com que os que com ela trabalham, sintam segurança quanto aos passos a serem dados no processo de trabalho - ao contrário do que talvez se pudesse supor. Maria Bethânia acaba por facilitar a vida de todos com seu nível de exigência, numa evidente demonstração de que entende muito do ofício de cantar, e que tal processo não significa subir ao palco ou parar frente ao microfone para soltar a voz, simplesmente.

Nesse filme, e ao menos no caso de Bethânia, percebe-se que um bom artista determina todo o processo de desenvolvimento de um trabalho. O diretor tem a felicidade/capacidade de nos apresentar uma pessoa de personalidade forte - coisa óbvia, até para quem não é fã confesso - mas de sensibilidade que beira à da singeleza infantil. Religiosa e supersticiosa, apaixonada pela mãe e pela carreira, por Santo Amaro da Purificação e pelo Rio de Janeiro.

Filma a irmã de Caetano Veloso, revelando olhares eternecidos e sorrisos tranqüilos, ao recordar momentos da infância, a convivência com o irmão mais famoso e histórias jogadas ao vento. É elegante, muito elegante, quando mostra um Rio de Janeiro noturno, idealizado por poucos - já que o comum é imaginá-lo com sol rascante e corpos em busca de uma tostadinha a mais. Como no momento em que inicia o documentário, quando podemos ver e quase sentir, na tela, uma madrugada na cidade, beira-mar, com figuras da noite que passam, trabalhadores ou seres pensativos, em meio à areia que voa, soprada por um vento forte que também se incumbe de balançar as folhas e agitar o mar. Um início inspirado e inspirador. Terno, mas que mostra um trabalho seguro, de boa e luxuosa qualidade.
Leia também: