O Mundo Encantado de Gigi:


Fonte: [+] [-]
Original: Yona Yona Penguin
País: Japão/França
Direção: Rintaro
Elenco: Animação
Duração: 87 min.
Estréia: 25/12/2010
Ano: 2009


Infantilíssimo e belíssimo


Autor: Cid Nader

O mais interessante na cultura japonesa que nos é revelada das mais variadas maneiras pelo seu cinema – expressão artística que se instalou desde os primórdios com força e qualidade muito particulares e fortes – situa nossa compreensão dela sem nenhum medo ou camuflagem, da parte deles, entregada ostensivamente, escancarando o quanto o país sofreu de “interferências” externas no século XX, o quanto conseguiu manter (de forma surpreendente, já que se sabe a quantidade de ingerências e buscas consentidas) de suas tradições (de forte aspecto religioso, rescindindo aos tempos da feudalidade, muito lúdica e bela ao “olhar” e ao “ouvir”), o quanto esforça-se para manter-se na “dianteira mental” (com seus futurismos – verdadeira fascinação, diria – e suas apostas ousadas), enquanto consegue embaralhar tudo em pacotes com organicidade e bastante compreensíveis: além de, normalmente, atraentes.

Interessante se faz constatar diversas manifestações culturais – sendo, que novamente digo, o cinema é terra fertilmente bem utilizada – do Japão beirando ou ingressando com pés (na jaca mesmo, sem dó, por vezes) no kitsch, no “estranho”, no quase feio, ou no bonito cafonamente certinho. Interessante, também, perceber a potência gráfica do país (e aí, pelos mais diversos aspectos plásticos, que vão das pinturas ao modelo de escrita, que passa pelos modelos arquitetônicos, mas que tem um reconhecimento danado quando se fala na animação de lá – e lembra-se dos mangás, das caricaturas, das pinturas narradoras de períodos, chegando-se aos animadores de cinema embaralhando tudo para criar uma “escola” de qualidade admirada por qualquer um que já tenha visto ao menos algum trabalho de um dos vários mestres), e constatar que ela é calcada justamente em diversas bases formadoras.

Rintaro (nome artístico de Shigeyuki Hayashi), o diretor de O Mundo Encantado de Gigi, é realizador até que profícuo (com muitos trabalhos para TV e algo para o cinema), e está um tanto distante de ser conhecido em grande escala no Brasil: seu trabalho que criou alguma marca por aqui foi “Metrópolis” (2001). Isso não significará nada após algum ser humano com um pouco de curiosidade e desapego de rigidezes estranhas (enxergar artes – cinema entre elas – com rigidez exagerada teria impedido escolas e períodos de surgirem, daí imaginar sempre que observar com, dureza é, no mínimo, estranho) assistir a essa animação, que fala de uma menina que se veste de pinguim, fica amiga de um ser de uma outra camada, e embarca para outras “paragens” com a certeza de alguns necessitados de que ela significa a salvação (inclusive com citações em textos sagrados).

Já que iniciei todo esse texto falando das influências no Japão, vou logo ao que me levou à divagação: o filme é uma mescla danada (ainda bem, já que não se percebe nenhum medo de taxações estrangeiras) de signos e influências gráficas. Há toda uma sincera e fluida mescla de compreensões religiosas e comportamentais gerando o caminhar e motivações dos personagens, com anjos e elementos budistas contracenando com figuras poderosamente assustadoras, e mais outras de traços que lembram desde bonequinhos fofinhos a personagens absolutamente cibernéticos: e aí instala-se um monte da compreensão nipônica sobre o que é a arte (eles realizaram com o passar dos tempos uma verdadeira antropofagia cultural, que nota-se bastante fisicamente nos traços como os executados aqui).

Mantendo o foco no aspecto técnico, não dá para não ficar minimamente estupefato com a qualidade do traço em 2D utilizado (sim, muito traço e cor), com a execução de computador necessária para fazer deles algo compatível com a qualidade exigida nos dias de hoje na hora da finalização (as carinha de Gigi e do serzinho que a leva à outra esfera, são belas em seus traços, e reveladoras de suas angústias que teimam em render-se à naturalidade infantil): mas o mais impressionante mesmo é a “invenção” do diretor que cria imitações geniais de movimentos de câmeras (zooms, gruas, travellings...) fazendo crer mesmo que o que se observa por quase todo o tempo seria fruto de encenação em carne e osso captada com esmero, inteligência e domínio, raros entre a maioria dos diretores– chega a ser aterrador de tão bom.

Fugindo do aspecto técnico e embarcando-se na essência da história, mesmo com a imensidão de referências como as que constituíram um país de mescla essencial, não dá para escapar do aspecto mais puramente nipônico que Rintaro impõe: o anseio de Gigi pela figura do pai, apesar de universal, ganha seu aspecto mais emocionante por atitudes e palavras que são muito mais comuns pelas bandas daquela ilha comprida de lá (o momento em que ela lembra na maneira – para nós estranha – utilizada pelo pai para criar confiança; ou o emotivo instante em que ela rompe todos os medos - tem algo a ver com sair do chão, digamos -, com ajuda que só poderia pensada por gente de olhinhos puxados); as discussões e valores entre o povo que se sente ameaçado e os que ameaçam (apesar de figuras de aspectos mil, quando levadas a planos de compreensão e motivação não deixam escapar que é de Japão que se fala). Eles que realizaram com o passar dos tempos essa verdadeira antropofagia cultural, talvez tenham muito reconhecimento justamente por um modo de diluição utilizado que impede um não reconhecimento automático na hora de atitudes e conclusões decisivas.

E o mais surpreendente é que Rintaro conseguiu passar toda essa impressão acumulada de seu país e de seu povo, num filme que pode ser absolutamente compreendido e assistido por crianças e adultos. Na realidade, os adultos se divertirão por muitas coisas dele, mas as crianças se enxergarão num trabalho de alma e comportamentos infantis (no melhor dos aspectos).

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