Enterrado Vivo :


Fonte: [+] [-]
Original: Buried
País: Espanha
Direção: Rodrigo Cortés
Elenco: Ryan Reynolds, José Luis García Pérez, Robert Paterson.
Duração: 97 min.
Estréia: 10/12/2010
Ano: 2010


Fadado a virar cult.


Autor: H. Hirao

Paul Conroy acorda no escuro, sem saber onde está nem como foi parar lá. É um começo parecido com o início do primeiro “Jogos Mortais” (Saw, 2004, de James Wan). A tela completamente escura dá a impressão de que a projeção está com defeito. Depois de um longo tempo, a chama de um isqueiro revela o rosto apavorado de Paul. E as paredes internas de um caixão.

Quem sentiu falta de ar com Uma Thurman tentando escapar de um caixão em “Kill Bill vol. 2” (2004, de Quentin Tarantino), deve passar longe de Enterrado Vivo. É sério. Até o cartaz do filme é claustrofóbico. Se Beatrix Kiddo, a personagem de Thurman, fica naquela situação por alguns minutos, Paul Conroy passa uma hora e meia enterrado. E a plateia sufocando junto. Não há uma cena sequer fora do caixão de madeira velha e rangente. Nenhum flash back para explicar o que aconteceu, nem cenas mostrando tentativas de resgate, nem sonhos, delírios ou imaginação do personagem para aliviar a tensão do espectador.

Em “Johnny Vai à Guerra” (Johnny Got His Gun, 1971, de Dalton Trumbo), um soldado volta da guerra sem pernas, sem braços, o rosto desfigurado, cego e mudo, mas consciente. Seus sonhos e lembranças recontam toda a trajetória do pobre soldado. “Por Um Fio” (Phone Booth, 2002, de Joel Schumacher) passa-se quase todo dentro de um cabine telefônica, mas ela é de vidro e podemos ver o que acontece à sua volta. Mais recentemente, “Demônio” (Devil, de John Erick Dowdle) mostra algumas pessoas presas em um elevador, mas a maior parte da ação se passava do lado fora.

Enterrado Vivo é radicalmente diferente. Ryan Reynolds é o único ator em cena e conduz com a maior segurança toda a trama. A única ligação com o exterior é um celular que, não por acaso, foi enterrado junto com Paul. Por meio de ligações telefônicas, o roteiro vai revelando quem é Paul Conroy, onde ele está, por que e quem o enterrou. O roteiro original de Chris Sparling é bem estruturado e consegue manter a tensão e o suspense. Manter, não, aumentar. O ar vai rareando, a bateria do celular está acabando e cada segundo perdido com caixa postal ou espera telefônica é uma agonia. Não há tempo a perder. O filme ainda dispara críticas contra a guerra, a política de ocupação dos Estados Unidos no Iraque, a falta de ética das corporações, em uma das cenas mais revoltantes. Sobra uma fagulha até para a Internet e a audiência sádica do YouTube.

Apesar de toda a história se passar em um espaço confinado, a fotografia é ágil, a iluminação produzida pela chama de um isqueiro ou pela telinha do celular é apenas o suficiente para distinguir o rosto de Paul e parte do reduzido cenário, a câmera movimenta-se como uma mosca, às vezes voando, às vezes parada, observando. Por dois momentos, a câmera permite se “afastar”, mas esse afastamento só reforça a ideia de solidão e abandono. Também serve para marcar a transição de atos.

Ryan Reynolds é um ator versátil e transita bem entre comédias ou comédias românticas como “A Proposta” (The Proposal, 2009, de Anne Fletcher) e filmes de ação como “X-Men Origens: Wolverine” (2009, de Gavin Hood). Reynolds será o novo “Lanterna Verde”, no filme que deve estear em 2011.

Enterrado Vivo é uma experiência cinematográfica que extrapola o gênero suspense e tem tudo para se tornar um cult-movie.

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