Tetro:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA/It/Esp/Arg
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich e Maribel Verdú.
Duração: 127 min
Estréia: 10/12/2010
Ano: 2009


Sobre voltar ao ofício.


Autor: Cid Nader

Francis Ford Coppola voltando à sua função maior deveria ser sempre um momento de júbilo. Genial diretor, principalmente porque transitou desde seu início pelas mais variadas possibilidades que o cinema permite: criou filmes marcantes amparado pela potência máxima dos grandes investimentos - fracassou também aí -; revolucionou modelos de linguagem (com algumas ousadias estéticas que dialogavam fortemente com as tendências de seus tempos), obtendo reconhecimento imediato por alguns, quebrando estúdios, por outros, sendo mal recebido e redimido à frente; inventou sagas trazendo ao cinema dos 70 em diante algo que havia surgido nos cinemas ancestrais, pré TV; falou de amor, vingança, guerra, horrores e beleza plástica numa mesma modulação de qualidade superior em busca de inventividade. Isso e algo mais, de forma tão intensa, tão inconformada, que viu sua imagem sendo despregada das dos grandes diretores inquestionáveis dos EUA, mais ou menos paralelos à sua existência e seu tempo – Scorsese, Eastwood, Altman... -, para cair em rotulações simplificadoras que o relegaram a um plano mais ligado a exotismo e perspicácia (ou tentativa de) comercial: também quem mandou eleger sua vida como parâmetro para boa parte de sua obra, além de largar tudo para ganhar dinheiro produzindo vinhos.

Pois bem, volta (numa escala mais ampla e ambiciosa), com Tetro e a tal esperança jubilosa toma forma “acendendo” os sinais de atenção para o que virá. E o que veio deixa dúvidas sobre o quanto o filme poderia ser entendido como uma verdadeira volta ideal, ou sobre o quanto o tempo e ausência (distância) do ofício pode atrapalhar. O filme causa um misto de sensações, e escala, num rol de dúvidas, muito dos trejeitos e assuntos que sempre foram caros ao diretor: está lá ele, simbolizado na figura do jovem Bennie (um marinheiro de 17 anos interpretado por Alden Ehreinreich), que vai a Buenos Aires em busca do irmão mais velho (seu ídolo e figura a ser imitada, cultuada), o inconformado Tetro (Vicet Gallo) - refazendo figuras (que são cópia de sua família) e que já habitaram anteriormente, "Vidas Sem Rumo" ou "Rumble Fish"; está lá a figura forte do pai, o maestro de sucesso - opressor dos anseios dos filhos - Carlos (Klaus Maria Brandauer), como ocorria em "O Poderoso Chefão"; ou a cópia quase perfeita da primeira mulher de Al Paccino (no primeiro filme da trilogia sobre a máfia), que morre num atentando na Sicília, aqui como Miranda (Maribel Verdu).

Toda essa reconfiguração humana parece, a princípio, um retomar de assuntos e temas que até poderiam ser entendidos como frutos de uma compilação autoral, mas que - principalmente pelo afastamento que impôs um clima de frieza e não imersão, ou obsessão (entendendo eu que autoralidades, quando temáticas, devam significar exercício de obsessões que não podem ser digeridas de maneira interior) -, aqui, pareceu algo mais como retomada da arte, com receios de tropeços, sobre domínios e caminhos conhecidos.

Mas, como percebi no novo trabalho outras sensações interferindo nas minhas constatações, o tal misto e dúvidas ganham "potência" benéficas quando percebemos no filme a ousadia estética tentada (na época, implodidora - acabando com as estruturas da "American Zoetrope", estúdio dele e de mais alguns bons) no genial "O Fundo do Coração" (uma das grandes obras de amor do cinema): por quase toda o trajetória, Tetro se vê conduzido com o rigor e rigidez, controle total de luzes e nuances, que se consegue quando se tem domínio das ferramentas e modos unicamente possíveis em estúdios (o PB e as "falsidades" propositadas de ambientes chegam a emparelhar com o que ele obteve ousadamente no filme lá de 1982); o clima farsesco e exagerado de alguns momentos interpretativos também são da mesma "pegada" (teatral, inclusive, literalmente, mas aqui com razão justa de ser, não como reverência abobada).

Há, também, o lado positivo da admiração que ele demonstrou pela capital da Argentina, o que conferiu um outro bom passo ao trabalho (entre as coisas positivas e as negativas) nessa "volta". Coppola demonstrou que mantém o olhar do artista que sabe de onde tirará as belezas, como explorará os recantos, como fará render em benefício de seu trabalho recantos físicos que não seriam de sua alçada natural (lembrando que filmou no extremo oriente, ou na Itália...). O que temos, é um Tetro que poderá significar mais à frente uma espécie de ressurreição de um gênio que se retirou não para repensar seus caminhos. O que temos - no momento - é um filme que pode ser visto sem sustos, mas que causará dúvidas (bom mebrar que há uma surpresa meio novelesca demais...). Antes isso?

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