Abutres:


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Original: Carancho
País: Argentina/Chile/França
Direção: Pablo Trapero
Elenco: Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña.
Duração: 109 min.
Estréia: 03/12/2010
Ano: 2010


...de assuntos "pancada" e show de planos-sequência.


Autor: Cid Nader

Não li nenhuma crítica a respeito de Abutres, mas como vivo num mundo dos vivos, e é impossível tapar as orelhas pelo tempo todo, fiquei sabendo de recepções negativas (ou amenas) desse mais recente trabalho de Pablo Trapero entre amigos da crítica. Parece que o maior entrave estaria sobre uma possível “comercialização” do cinema dele... Uau: diria. Sem ter lido – portanto não me estenderei no assunto do filme por essa ótica -, diria que se forem verdade tais “fatos” utilizados para reclamação sobre o resultado, passo a pensar na complexa equação que pode brotar de cabeças analíticas, “engessando” uma carreira por um traço avesso (na opinião de quem não teria gostado) ao traçado mais comum e notável de qualquer acumulação de obras que perfaçam um preceito autoral de um artista. Afora que imaginar o que ele realizou aqui como um retrocesso (na realidade nem seria, já que ele nunca caminhou por tais plagas) me parece um comodismo (falta de disposição na tentativa de alcance) na observação das possibilidades técnicas empreendidas para a confecção do filme.

Trapero é reconhecidamente um diretor que caminhou sua trilha em cima de denúncias sobre vários quesitos denunciáveis da política e da sociedade da Argentina. Por vezes, de forma bem mais contundente, fisicamente, (na construção das atitudes denunciadoras pelo aspecto formalístico - ou técnico, ou estético), como a violência bem explícita de cenas de “El Bonaerense” (2002), por exemplo; por outras, com aspectos de “sucumbimento” moral prevalecendo (se bem que como impactos e resultados tão contundentes quanto) como marca das denúncias, como em “Mundo Grua” (1999) ou na “Leonera” (2008). Sempre deixando claro que denunciava algo, mesmo sem entrar fortemente em todos os meandros escarafuncháveis que se ofereciam como elementos potencializadores para trabalhos com tais propostas, e que poderiam remetê-los a serem compreendidos e aceitos como produtos mais de jornalismo do que arte (cinema). O diretor é antes de tudo um artista de qualidade.

E é esse artista esplêndido o que mais impressiona em Abutres. Sem fugir do modelo e quantidade de questões a serem tocadas (comparando a seus outros trabalhos, quase que por tempo de filme dedicado a esse setor, milimetricamente), Trapero traz à tela assunto bastante estranho (mesmo para quem vive num país de absurdos inimagináveis nas questões de trambiques, como é o nosso), que fala de advogados, policiais, médicos, pessoas da saúde e da polícia (e aqui, o modo como coloca a polícia na questão remete ao modelo utilizado para desenhá-la lá em Bonaerense), orquestrando maracutaias para se aproveitarem dos momentos de desespero em torno de quem parentes mortos ou feridos em acidentes de automóveis, de olho nas indenizações que restarão de apólices e outros seguros de vida.

O filme inicia com dados escritos referentes ao número de acidentes no país e para aí nas questões informativas mais “concretas”. Como disse, ele é um artista que utiliza suas ferramentas para trazer assuntos à baila, e a partir daí espera-se sempre que o andar de suas obras passe a ser gerido por manipulações que a façam ser compreendida, mas sem abdicar dos elementos que a façam ser compreendida como resultado de seu meio: e ele dramatiza seu filme. E com qualidade. Cria o personagem de um Abutre, Sosa, (advogados que circulam a ”carniça” em busca do dinheiro das apólices), interpretado soturnamente por Ricardo Darin. Entra com uma médica residente (ou enfermeira?), Luján, personagem de Martina Gusman (com aspectos raros evidenciados por simples movimentos faciais). Obviamente, com o passar do tempo, com estranhamento no início do reconhecimento entre ambos, iniciarão uma relação, e a partir de então, percebe-se que dramatizar um tema faz parte inexorável do cinema para que ele funcione como tal. Só que o diretor resolveu, dessa vez, que deveria brindar sua arte com exercícios e tentativas mais ousados do que costuma ser o comum no sóbrio e bom cinema de seu país, concretizando um trabalho que adota espantosamente a câmera na mão, grudando em seus personagens, construindo quadros amplos recheados de dados visuais importantes, e concluindo uma série de “planos-sequência” com qualidade individual (são de formas e “perseguições” diferentes entre si) muito acima da média – pensei, logo que o filme encerrou (com duas sequências em que a câmera “senta” no banco de um carro, para depois grudar num vidro traseiro, tudo com ação extremamente violenta embaralhando e complicando as ações executadas) num “show de planos-sequência”.

Bem longe de imaginar o trabalho como algo que busca parelha ao cinema comercial (a não ser que se considere Michael Mann basicamente comercial, por exemplo), o que notei espantando nesse novo trabalho de Pablo Trapero é que ele pode (e quer) continuar sendo incisivo sem ter de se obrigar a ficar sedimentado num patamar de cinemas mais toscos visualmente (o que nunca ocorreu em seus filmes, aliás). É filmaço, é bom na essência, e magistral na forma.

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