MORO NO BRASIL:


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Original: Idem
País: Brasil/ Finlândia/Alemanha
Direção: Mika Kaurismäki
Elenco: Documentário
Duração: 102
Estréia: 16/12/2005
Ano: 2002


Mal dos Trópicos


Autor: Cid Nader

Já há alguns anos, uma pesquisa feita por uma dessas empresas que pesquisam tudo o que se possa imaginar, revelou que habitantes dos países nórdicos tinham como sonho do Natal ideal passá-lo sob palmeiras, com o mar na frente e o sol queimando. Bem diferente do desejo - falo por mim e alguns mais próximos - de muitos de nós, aqui dos trópicos, que sempre sonhamos com neve, pinheirinhos em profusão, corais cantando singelas músicas em capelas de madeira e na penumbra, renas e tudo mais (pra não falar no bom velhinho).

O que poderia parecer espantoso, sempre apareceu óbvio, para olhos e mentes mais atentos. A coisa mais comum para quem viaja ao nosso Nordeste e suas praias paradisíacas é a presença daquelas figuras brancas, normalmente meio gordas e agigantadas, caminhando com olhar encantado ou torrando, deitadas, na tentativa de atingir a coloração mais próxima possível à de um camarão. É notável o fascínio de alguns nórdicos que optam por deixar frio e enclausuramento para continuar a vida por aqui, não raramente mudando de mala e cuia, abandonando carreiras por vezes já estabelecidas.

A Finlândia - país nórdico mas não escandinavo - com um padrão de comportamento típico dos países mais distantes dos centros nervosos, exportou para o Brasil, há algum tempo e pelo mesmo motivo alegado no parágrafo anterior, o irmão menos famoso dos Kaurismäki, Mika. De carreira menos constante e premiada que o irmão Aki, com filmes que sempre navegaram fora do padrão "mais comum", não raro de baixa qualidade, encantado por outro dos motivos comuns que despertam paixões por nossa pátria, a música, realizou no longínquo ano de 2001, esse "Moro no Brasil", onde investe numa pesquisa da origem de vários de nossos ritmos. Diz Mika que o Brasil não é só samba e que o fato de residir por aqui já há algum tempo credenciou-o a realizar tal investida. Não se sai totalmente mal na empreitada, mas percebe-se a falta de um aprofundamento mais rigoroso de pesquisa, principalmente nos momentos - e não são poucos - em que se mostra encantado pelo canto da sereia, juntamente com sua câmera.

Diz que não somos somente samba, mas demonstra muito mais prazer na hora de retratá-lo - talvez por conhecer mais intimamente elementos ligados a esse ritmo. O que, se não é bom sinal para um documentário que se pretenda abrangente, teve o mérito de, à época de sua feitura, nos revelar um fenômeno que se mostrou ao resto do país um pouco mais tardiamente: seu Jorge, com jeito diferenciado, mais cool e ao mesmo tempo "careta" na manutenção e defesa do samba de raíz.

Um olhar estrangeiro deslumbrado, se não o ideal, com um carinho explícito interessante. Afinal, quantos de nós não somos de origem estrangeira / deslumbrada.
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