3 Homens e uma Noite Fria:


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Original: Kolme viisasta miestä
País: Finlândia
Direção: Mika Kaurismäki
Elenco: Elena Anaya, Natasha Yarovenko, Enrico Lo Verso
Duração: 95 min.
Estréia: 19/11/2010
Ano: 2008


É Mika parecendo Aki.


Autor: Cid Nader

Nunca tive dúvidas sobre Aki Kaurismaki ser muito melhor diretor do que Mika (seu irmão mais velho). Diretores da Finlândia – um país que, realmente, não tem muita tradição na arte. Mas, enquanto Aki sempre tratou de falar de um quinhão (não exatamente só físico) de sua terra - na realidade, atentando para os trabalhadores e para os seres solitários que vagam pela gelidez de Helsinque (trazendo para o mundo mais central uma ideia, para um local sempre imaginado pela riqueza e pelo bom desempenho social) -, Mika cumpriu um dos i imaginários que se direciona aos de lá, atravessando mares para morar num lugar de sol e calor eternos, sob palmeiras e tal (no caso, o Brasil). Mika fez filmes sobre nosso samba, por exemplo, somente ratificando que sua dispersão cultural coadunava de modo exemplar com sua dispersão quanto ao bom manejo de ferramentas para a concretização de filmes minimamente razoáveis (vá lá: minimamente até que eram alguns, mas nada o suficiente para criar algum tipo de marca: como Aki conseguiu).

Elipse literária: temos o primeiro filme de Natal estreando nas telas do Brasil nesse ano de 2010 (na realidade, aqui em São Paulo, e somente numa), ainda no mês de novembro, perdendo-se possivelmente a grande chance de um bom produto natalino (com clima, neve, escuridão e tudo o mais que perfaça a imagem do Natal brotada após a Idade Média) para satisfazer os que buscam na telona um complemento honesto e compactuante com os momentos de celebração. E foi Mika – o estrangeiro do frio que busca o calor nos trópicos – quem fez esse 3 Homens e uma Noite Fria.

Surpreendendo por filmar em sua terra, sob as condições climáticas que mais lhe fazem justiça – vide o título -, criou ainda por cima um drama que se passa na noite de Natal, onde três homens buscam “expiações” num bar de karaokê, após passarem um trecho do filme se reencontrando (são amigos de datas antigas que não se vêem com assiduidade), saindo de um hospital e na busca de um local onde beber e “expiar”. Além do mais, Mika decide que é da Finlândia mesmo (e mais ainda, da Finlândia exportada por Aki), e faz seus tipos, nesse caso, carregados de dramas particulares que só conseguem vir à tona aos pequenos soluços e após a ajuda das bebidas, mas apostando em situações insólitas e num modelo de humor secamente de lá mesmo. Cria um clima que lembra alguns trabalhos do irmão mais novo, consegue impor traços críveis nos personagens centrais (se equivoca nos paralelos, com o dono do karaokê não acertando o tom quando evoca os homens a cantarem, e com uma estranha que entra na roda, surgida próximo do final do filme, mas como que caída de um OVNI hipóide), fecha bem os diálogos e mantém a atenção e a tensão sob domínio finlandês: isso é, sem deixar que momentos catárticos acabem sendo o final óbvio de um círculo construtivo (com a “calma” e o tempo justo, comum, fazendo as vias de circulação da trama e dos dramas).

Talvez para quem não conheça o jeito finlandês de ser o filme possa parecer meio estranho. Mas é justamente aí que reside o grande charme da obra do irmão de Mika. É um óbvio respeito ao modo de ser dos seus, com histórias individuais interessantes, mostrando que são seres mais estranhos do que a imaginação geral faz deles, e, nesse caso, com a potencialização extra de um clima natalino autêntico (certo que os Papais Noéis que surgem durante o trabalho não são os indicados para criancinhas): além de um belo (belo mesmo e com música emocionante sendo entoada de forma inédita) momento final. Mika não é Aki – nem Aki um gênio absoluto, sim -, mas aqui conseguiu parecer.

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