Minhas Mães, Meu Pai:


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Original: The Kids Are All Right
País: EUA
Direção: Lisa Cholodenko
Elenco: Anette Bening, Julianne Moore e Marc Ruffalo.
Duração: 106 min.
Estréia: 12/11/2010
Ano: 2010


Ah, a instituição e a família...


Autor: Cid Nader

História do mundo moderno – do mundo capitalista, da nova tradição americana, das possibilidades impensáveis quando do surgimento do cinema... - essa aqui bolada por Lisa Cholodenko. Moderno, nesse conceito americano de pensar, pode seu um filme que aborde uma união gay feminina como fato a ser encarado de maneira comum; pode ser um filme que inclua sob o mesmo teto dessa união (no caso aqui bem estável, de cerca de vinte anos de convivência) dois filhos naturais (cada um do útero de cada uma das mulheres do casal: nada de filhos adotados); pode ser ainda imaginar dois ícones da feminilidade do cinema ianque (como são Julianne Moore e Anette Benning) constituindo tal casal, emendando algumas beijocas mais demoradas na tela, sem que isso cause o escândalo que provocaria antanhos.

Mais moderno ainda, seria entender que tais filhos nasceram da fertilização de um mesmo pai, mas feita por métodos científicos (nada de relação carnal, ou sequer conhecimento físico entre quem doou e recebeu), ou pensar nesses filhos descobrindo o nome desse “pai”, para em seguida ir atrás dele – assim, por ir, modernamente curiosos e descompromissados -, conhecendo-o, se “engraçando” por ele, e trazendo-o para o conhecimento das mães (que sempre evitaram tal atitude). Filme de um mundo moderno, no qual esse pai cinquentão (careteiramente protagonizado por Mark Ruffalo), anda de moto (ante a proibição antiquada das mães para seus filhos), tem restaurante orgânico, uma “fazendinha” orgânica, vive em casa moderninha e colorida, tem amigos coloridos e meio hippies (desses hippies modernos, reinventados, reinterpretando um momento, revestidos).

Para completar toda essa modernidade: a diretora Lisa Chodolenko vem do mundo das séries modernas de TV (essas da moda, onde se perfaz uma nova história midiática, já há alguns anos, para o gênero, que tratam mais livremente da sexualidade, e nas quais assina alguns episódios – como em “The L World”, ou “Six Feet Under”), e tratando a linguagem com uma leveza que admitiu bem a transferência de veículo, conseguindo imprimir uma dinâmica interessante, eficiente e ligeira (que, parece, anda agradando bastante pessoas em alguns festivais mundo afora – como o de Berlim, onde foi tida como uma sensação). Tudo moderninho, até a página dois.

Página dois que não compromete o resultado se ele tivesse recebido nota de avaliação, mas que faz ver o quanto, quase sempre, indicadores ostensivamente moderninhos (tantos signos, tantas revelações a serem vistas na marra, mastigadas e editadas para tal) não podem ser merecedores de tanto alentamento, “vivas”, “hurras”, como se “finalmente” o cinema ianque tivesse descoberto que se pode ser ousado – ousados, aos montes, tem e sempre teve o cinema de lá, mas que se impuseram ao criar linguagens, ao não entregar tudo pronto para quem quisesse, ao não cederem aos parâmetros comportamentais da sociedade. Parâmetros comportamentais que aqui foram ultrapassados em alguns de seus modelos de fórmula (união gay, filhos de inseminação), mas que não sobreviveram como peça de resistência à máxima institucional da grande fatia que ainda pensa o país como sobrevivente somente dentro da célula, do lar, do núcleo, da família. O filme, ao final, mesmo ligeiro no formato e bom e dinâmica, é mais um filme da instituição Estados Unidos.

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