Dois Irmãos:


Fonte: [+] [-]
Original: Dos Hermanos
País: Argentina
Direção: Daniel Burman
Elenco: Antonio Gasalla, Graciela Borges e Elena Lucena.
Duração: 105 min
Estréia: 08/10/2010
Ano: 2010


Antigo demais


Autor: Cid Nader

Em Dois Irmãos o tema “relacionamento familiar” volta a imperar, como que para a manutenção da autoralidade de Daniel Burman tentando deixar marcas de referência a uma obra que dialoga entre suas partes. O todo da obra dele é nitidamente dialogante entre suas partes, mas a referência mais forte e facilmente notada tem a ver com a apreciação do mundo das famílias judaicas sendo a exploração mais à superfície. Portanto, seria de se imaginar que falar de relação fraternal, sem referências mais nítidas à comunidade judaica, mesmo sendo ponto obviamente “re-utilizado”, poderia ser compreendido como uma manutenção da linha autoral, mas nas coisas mais das entranhadas, no menos visível? Sim e não.

Para quem conhece as principais motivações que mantém os laços da comunidade tão estreitados é fácil aliar qualquer referência de laços familiares, de núcleos (pode ser de toda uma família, pode ser entre mãe e filho, pode – e isso com muita potência – ser entre irmãos), aos procedimentos comuns, ao dia-a-dia, ao que há de mais importante a ser mantido e nutrido. Portanto, mesmo sem estar aparente demais a questão da união de um povo, nesse caso, o modelo de comportamento tão complexo quanto simples entre os irmãos, interpretados por Antonio Gasalla e Graciela Borges, remete facilmente a compreender como essa obra toda que Burman tenta construir pode falar por trechos, por diferenças, por outros modos do que aparentava até agora. Era fácil demais – até porque ele nunca quis negar ou se distanciar disso – perceber que seus filmes falavam de sua raça, mas não tão fácil isolar de dentro disso a força dos relacionamentos familiares.

A parti daí, lembrando que essa obra toda dele não é das filmografias que mais me agradam, particularmente – com um perceptível avanço e melhoria a cada novo filme que ele lança na praça, com certeza -, principalmente quando se pensa nele dentro da cena argentina atual (ao menos quando comparado a Martel, Trapero ou Agresti, por exemplo), e falando mais diretamente do resultado desse, sinto que um certo retrocesso se deu – apesar dos prêmios do filme, dos muito elogios de pessoas que respeito e tal. Há um engessamento muito forte na trama – tirada da obra literária “Villa Laura”, de Sergio Dubcovsky -, que tenta se valer fortemente das boas atuações do casal quase idoso de irmãos, que tenta se valer das belas imagens e do clima uruguaio que toma o filme a partir de seu primeiro quarto, e que também vai apostar nas belas captações de imagens feitas dessa vez com câmera ligeira.

Tal engessamento – que revela algumas das características “ruins” do diretor -, vem na carga pesada que ele procura impor ao modelo usual de atuação, que normalmente tem forte pendor aos excessos teatrais, e que aqui ganham mais certeza nesse processo justamente quando se vê o filme amparando uma tentativa de construção teatral na isolada vila uruguaia onde o irmão se vê “impelido” a morar. Tal engessamento, vem também no forte contraste das personalidades que ele costuma impor aos seus personagens – aqui, uma irmã meio trambiqueira e elétrica, em anteposição a um irmão gay, tranqüilo, ourives, quase artesão -, talvez como modo de criar nuances em seus dramas. Tais problemas, aliados e ajuntados a mais alguns que são próprios do modo de editar e encadear seus filmes, impõem peso e lerdeza, impedem justamente que as nuances procuradas por ele sejam palatáveis, já que passam a se fazer notadas isoladamente, e não dentro do contexto do trabalho – sem que isso possa ser visto como uma opção estética -, passam a impressão de um cinema acadêmico demais, dentro de uma cinematografia (essa nova, argentina) que procura, entre acertos e muitos erros, criar suas próprias diretrizes, seus próprios caminhos. É cinema que deveria ser mais “ousado”, ou melhor – dentro de um academicismo buscado.

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