SOU FEIA MAS TÔ NA MODA:


Fonte: [+] [-]
Original: idem
País: Brasil
Direção: Denise Garcia
Elenco: Documentário
Duração: 61
Estréia: 16/12/2005
Ano: 2005


"Sou Feia Mas Tô na Moda" - Brasil, um país sem maus


Autor: Cid Nader

O Brasil é um país do bem, das pessoas família, dos seres do bem. Isso tudo no pior sentido que se possa imaginar. Nós não temos "marginais" artísticos de verdade, que assumam seu desvio das corretas manifestações ditadas pelo bom senso comum da sociedade, de cara posta pra bater, de cara suja. Coisa mais comum ver, por exemplo, cantores da época do ideal punk, com sua falta de dentes, seus coturnos puídos e cusparadas na platéia - fãs -, derretendo-se num limpíssimo sofá sob os elogios do tradicional e "parisiense" Jô Soares, falando da vontade de casar, ter filhotes e dar bons exemplos - imagino Sid Vicious, ou Jimmy Hendrix (aí não punk, mas muito junk) se virando e contorcendo em seus túmulos. Ou as garotas que posam para a Playboy que, invariavelmente, acabam pousando no sofá da titia Hebe Camargo, confessando a vontade e o desejo da persistirem na "carreira artística", de preferência comandando um programa dirigido para as inocentes criancinhas, anjinhos que merecem todo o nosso respeito (delas) e bons rumos a serem ditados.

Falando sério, não sei se faz parte da combinação de raças que nos eleva a um patamar mais alto - no mal sentido -, na comparação com o podre comportamento europeu, corroído pela idade da civilização de lá, ou com o sujo comportamento norte-americano, que não conseguiu até hoje se livrar da carga genética que formou um país com sêmen de degredados - e olha que nós também começamos assim.

O mais recente exemplo desse peculiar comportamento renegador de más intenções é o documentário "Sou Feia Mas Tô Na Moda", de Denise Garcia, que conta a história do funk sensual, nascido nas favelas do Rio de Janeiro, sob a pecha de ser pornográfico e tirar garotas do "bom caminho", pela excelência das letras e do entorno arrebatador dos bailes. O documentário, feito de maneira tosca e crua, nos arremessa para dentro do mundo funkeiro carioca, revelando o momento de seu nascimento, seus primórdios, com origem física nos bailes violentos e de porrada dos anos 1980 e que se tornaram mundialmente famosos pelas imagens que eram divulgadas , via satélite, direto dos morros para o mundo. Musicalmente, descobrimos estar sua paternidade um tanto mais distante - Miami - com a incorporação sonora do batidão como referência máxima de estilo harmônico - se é que podemos considerar assim.

Porém, o que mais desperta a atenção no documentário são as motivações explanadas por seus executores e defensores, dando vários depoimentos que contrapõe a suposta obviedade do baixo apelo sexual a um posicionamento, se não politicamente correto, que "engaja" o movimento, asssociando-o a movimento de libertação feminista ante posições machistas de subjugação, ou revolta do morro contra o asfalto. Volto ao início do texto, portanto: querer dissociar o funk sensual da obvia atração que exerce, justamente, sobre aficcionados pelo seu discurso duvidoso, significa romper laços com esse público cativo. Não podemos descartar totalmente momentos que poderiam ser relacionados a tomada de posições "sociais" mas, com certeza, sobra novamente a impressão de que aqui, no Brasil, não podemos nunca ser totalmente maus.
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