A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE:


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Original: Charlie and the Chocolat Factory
País: EUA/ Inglaterra
Direção: Tim Burton
Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore e Helena Bonham Carter
Duração: 115 min
Estréia: 22 de julho
Ano: 2005


A fantástica fábrica de Tim Burton


Autor: Laura Canépa

As primeiras imagens - o símbolo da Warner Bros. coberto de neve, seguido por uma linha de montagem em que doces são produzidos em série por engenhocas esquisitas - não deixam dúvidas: estamos diante de um filme realizado pelo mesmo diretor de Edward Mãos de Tesoura.

A auto-referência talvez seja o aspecto mais marcante dos filmes de Tim Burton, cineasta californiano de 47 anos que acaba de lançar seu 12º longa-metragem, A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolat Factory, 2005), em cartaz em todo o Brasil desde 22 de julho. A repetição dos temas, da composição visual e mesmo de certos objetos na sua obra já foi notada por diversos críticos. Personagens identificados como outsiders vivendo em mundos imaginários cheios de ameaças são constantes, assim como as referências à cultura pop e ao mundo do cinema. O intrigante nesse caso é a que sensação de deja vu não soa redundante, nem vazia. A cada novo filme, Tim Burton traz novas luzes ao mesmo universo.

Em seu remake do "clássico da sessão da tarde" dirigido por Mel Stuart em 1971, Burton conseguiu facilmente acomodar suas obsessões, sem abandonar a história original escrita por Roald Dahl em 1964. Trata-se da aventura vivida pelo menino Charlie (Freddie Highmore) e por seu avô (David Kelly) quando conseguem encontrar um dos cinco convites dourados escondidos em barras de chocolates da marca Wonka. Os convites permitem que seus donos visitem, por um único dia, a misteriosa fábrica de guloseimas dirigida por Willy Wonka (Johnny Depp), um industrial excêntrico que odeia gente (em particular as crianças) e tem como empregados, em vez de pessoas comuns, centenas de homenzinhos chamados de Oompa Loompas (neste filme, interpretados pelo mesmo ator, o impagável Deep Roy, multiplicado digitalmente).

Além de Charlie, outras quatro crianças encontram os convites. Todas se reúnem numa mesma manhã, cada uma acompanhada de um adulto, para começar o passeio - que desde o início se revela mais terrível do que jamais poderiam esperar. Sem que os seus pais neuróticos consigam impedi-las de serem como são, uma a uma, as crianças - o menino glutão, a menina competitiva, a menina gananciosa e o menino violento obcecado por tecnologia - caem nas armadilhas montadas por Wonka, uma espécie de serial-killer moralista e brincalhão. Sobram apenas Charlie e seu avô, membros de uma família feliz, porém paupérrima, para contar a história e receber o prêmio especial que Wonka daria ao vencedor (ou sobrevivente) de sua gincana sádica. .

Impossível não comparar o novo filme de Tim Burton com a outra versão cinematográfica da história de Dahl, mesmo havendo um claro esforço para evitar que isso aconteça. Num dos momentos mais importantes, as crianças assistem a um pífio espetáculo de bonecos que dançam ao som da música original do filme de Stuart. Ao final, os bonecos pegam fogo, para deleite de Willy Wonka/Depp. É como um pedido aos espectadores para que esqueçam do primeiro filme. Mas é inevitável que se avaliem as diferenças entre os dois, e que haja controvérsias a respeito. .

O livro de Roald Dahl empreendia uma espécie de cruzada moralista contra a ganância, o egoísmo e a ansiedade do mundo moderno, temas aos quais Mel Stuart acrescentou um psicodélico (e hoje fora de moda) elogio ao uso consciente das drogas alucinógenas. A visão de Tim Burton é um pouco diferente: para ele, o consumismo e a obsessão pela funcionalidade são os alvos principais, tratados com desdém e violência. A semi-escravidão dos Oompa Lumpas, que trabalham em troca de comida, e o ódio do Senhor Wonka aos trabalhadores também são vistos com certa ironia, embora não recebam um questionamento mais efetivo.

Há também um maior esforço no sentido de dialogar com a cultura cinematográfica, ao tratar-se o filme original como um clássico da sétima arte. A fábrica de Wonka, que no exterior é sombria e lembra o visual de Metrópolis, de Fritz Lang, é, em seu interior, uma galeria colorida de citações cinematográficas, inclusive de outros filmes do próprio Tim Burton como Os Fantasmas de Divertem (1988) e Edward Mãos de Tesoura (1990). Em seu passeio, as crianças assistem desde musicais da década de 1950 (cujas canções foram compostas especialmente por Danny Elfmann) até momentos de horror de obras famosas como A Morte do Demônio, de Sam Raimi, e Psicose, de Alfred Hitchcock.

Mas, se o filme de Tim Burton ganha do primeiro no que se refere à composição visual, à caracterização hilária dos Oompa Lumpas (paradoxalmente, eles têm mais personalidade que os do primeiro filme, apesar de serem interpretados pelo mesmo ator) e à crítica mais ácida à sociedade de consumo, perde quando se leva em consideração o aspecto afetivo do filme de Stuart. Isso se deve sobretudo à caracterização do personagem do Senhor Wonka, que Depp desempenhou de maneira mais afetada e menos eficaz que Gene Wilder - triste e inesquecível no filme de 1971.

A principal diferença entre as duas versões, no entanto, se refere a um aspecto acrescentado livremente à história por Tim Burton e seu roteirista, John August: os flashbacks que dão conta do passado de Willy Wonka. E é justamente nesses flashbacks que o diretor chama a atenção para a questão da "autoria" em seu filme, relacionando a história de Wonka com sua própria biografia.

Analisar o trabalho de qualquer diretor a partir da história de sua vida pode parecer reducionismo, mas, no caso dos filmes de Tim Burton, é inevitável. Sua biografia esteve sempre presente em sua obra, e foi revisitada das mais diversas maneiras. Neste sentido, parece gratuita a visão corrente de que o Senhor Wonka criador por Burton e Depp seria uma brincadeira com a figura de Michael Jackson. Na verdade, o Willy Wonka é, do começo ao fim do filme, uma referência ao seu próprio diretor.

Ao longo de sua filmografia, Burton produziu uma espécie de laboratório em que discutiu aspectos de sua vida, especialmente de sua infância e adolescência. O suposto abandono afetivo dos pais, as dificuldades amorosas e as tentativas fracassadas de integração com o mundo social foram, aos poucos, sendo incorporados, aceitos e resolvidos por meio de uma fuga em direção a um mundo imaginário. Da mesma maneira, os filmes fantásticos vistos por ele na infância, e até mesmo alguns de seus intérpretes (sobretudo os eternos vilões Vincent Price e Christopher Lee), foram trazidos de volta a partir de uma visão bastante pessoal, quase como substitutos de sua própria família.

Seu penúltimo filme, Peixe Grande (2003), no entanto, parece ter iniciado uma espécie de "virada" em direção a uma reconciliação com o passado. Marcado pelo falecimento recente de seu pai, pelo novo casamento (com a atriz Helena Bonham-Carter) e pelo nascimento de seu primeiro filho, Burton dirigiu um sensível melodrama em que um filho se reconcilia com o pai moribundo ao compreender o significado de seu mundo imaginário. Agora, o elogio à fabulação não aparece mais como fuga, e sim como possibilidade de compreensão e aceitação.

Numa linha semelhante, A Fantástica Fábrica de Chocolate nos apresenta Willy Wonka, um homem aparentemente insensível que odeia família e crianças - conquistado por uma criança que não possui nada além de uma família. O processo é reforçado quando essa mesma criança permite que Willy se reconcilie com o pai, um dentista (não por acaso interpretado por Christopher Lee) que o atormentara na infância e o levara a querer ter sua própria fábrica de doces.

Tanto em Peixe Grande quanto em A Fantástica Fábrica de Chocolates, tem-se a trajetória de um filho que procura compreender o pai: no primeiro caso, decifrando a sua fantasia e, no segundo, oferecendo-lhe a sua própria. Se levarmos em conta filmes anteriores como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999), em que o pai do menino Ichabod Crane mata a sua mãe, ou o já citado Edward Mãos de Tesoura, em que o pai (Vincent Price) morre antes de completar a "construção" do filho, podemos observar a evolução no sentido de resolver uma relação conflituosa.

Mas nem só de reminiscências autobiográficas e familiares é feito A Fantástica Fábrica de Chocolates. Indo além do aspecto melodramático de Peixe Grande, Burton recupera agora o tom crítico e mesmo o sadismo de filmes anteriores como Marte Ataca! (1996), partindo para cima da classe média e do modo de vida no mundo capitalista. Também estão no filme outras "marcas-registradas" do cineasta, como o ator-fetiche Johnny Depp, a nova musa Helena Bonham-Carter, a trilha-sonora de Danny Elfmann, o ambiente de cartoon e o visual remotamente expressionista nos cenários-chave, atestando, a cada fotograma, que estamos diante de um legítimo filme de Tim Burton, mesmo em se tratando de uma adaptação bastante fiel de um clássico da literatura infantil.

No final das contas, só o tempo dirá qual dos filmes será o preferido do público, ou se diferentes gerações adotarão versões diferentes como referência. Para quem se acostumou a assistir à Fantástica Fábrica de Chocolate nas sessões da tarde, é uma ótima suprpresa ver a crueldade exacerbada nessa releitura feita por Tim Burton, ainda mais ácida e próxima do horror que a de Mel Stuart. Resta saber, apenas, de qual filme lembraremos daqui a 30 anos...

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