Terra Deu, Terra Come:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Rodrigo Siqueira
Elenco: Documentário.
Duração: 88 min.
Estréia: 01/10/2010
Ano: 2009


De construção instigante


Autor: Cid Nader

Têm documentários que surpreendem mais do que uma vez. Que ultrapassam a “função” inicial da surpresa via revelação de fatos e coisas (afinal de contas, qual seria a razão de existir dos documentários não fosse essa?), para, num certo momento, dobrarem uma esquina qualquer (pode ser técnica, pode ser estética, ou mágica) e, quando alcançados pelo espectador, revelarem ou jogarem em seus colos um presente inesperado. Terra Deu, Terra Come, é dos que surpreendem pelo aspecto mágico de algo que se oferecerá já no final – mas não como adendo exclusivamente favorável e único para o bom resultado do trabalho, e sim como um adendo a mais (bem bom, sim) num trabalho que caminhou o tempo por vias seguras e atraentes.

O diretor Rodrigo Siqueira foi àqueles recantos inimagináveis (para nós, pobres seres de urbes) que representam quase mitologicamente o Brasil mais profundo. Quando se pensa nessas possibilidades existentes ainda em tempos atuais, se imagina (quando não se teima serem tais locais e seus possíveis seres frutos de sonho ou desejo) rincões no meio de montanhas, grutas ou paradisíacas beiras litorâneas de raros pescadores. Aqui, nesse documentário, para não fugir sempre de qualquer possibilidade antes imaginada (para não fazer crer que as cartilhas nunca entregam uma coisa só que possa ser aproveitada), nos vemos em meio das montanhas mineiras (quilombo Quartel do Indaiá, Diamantina), justamente num resquício quilombola: onde vive um negro velho e garimpeiro de diamantes, sua extensa família (de pureza, pela antiguidade, quase intocada), e tradições que remontam, mais do que a séculos passados ou à mistura dos ditames da antiga África mesclados às tradições religiosas europeias aprendidas e adquiridas por aqui mesmo, a esse idealizado que ainda habita trechos escondidos dessas nossas mentes urbanizadas e ainda sonhadoras (portanto, com o negro velho cedendo ao agrado ansiado de sonhos nossos ou desejos).

Rodrigo, com muita calma e paciência, intrometeu-se nesse recanto quase não datável, para resgatar histórias de tempos que se fundiram aos de hoje como um fluir natural dos tempos, como se novas tecnologias ou “avanços” tivesse cessado nos tempos das locomotivas. O diretor deu vez e espaço para que Pedro de Almeida (81 anos de idade) contasse suas coisas, falasse de seu passado fértil como garimpeiro de diamantes dos melhores, e demonstrasse todo um envolvimento religioso (sincrético, como deveria ser quase obrigatoriamente nesses casos de antiguidade e isolamento) que ultrapassa o comum, para revelar-se tão essencial como o alimento, ou o banho, ou a chuva que aduba. O trabalho tem todo seu ritmo determinado e subserviente ao ritmo de Pedro agir (algo bastante lúdico e encantador, mas não lento), o que somente conferiu ganhos à narrativa e facilitou as opções nos modos de edição – a ponto de fazer com que o diretor se possibilitasse a opção de sua própria aparição em diversos trechos, sempre com questionamentos que seriam feitos por qualquer um de nós.

A figura retratada, sua história, um seu vizinho, sua família e coisas relativas a desenvolvimento de rituais religiosos, fluem facilmente pelos meandros da construção, e a percepção desse material à mão ganhou força na sobriedade de saber o que fazer com isso sob o manejo de Rodrigo. Não é fácil ter fartos fatos quase “mastigados” tão à mão e saber como se comportar com eles: alguns pensariam que tais opções poderiam permitir “folga” no acabamento – coisa que por destreza não ocorreu aqui. Talvez - para criar um senão dentro desses meus elogios - o diretor pudesse ter evitado alguns poucos momentos em que a magia das imagens ou de situações se insinuaram a mais, e aos quais cedeu com o recurso simplificador de algumas câmeras-lentas ou fusões de aspecto “etéreo” demais. Nada que tenha comprometido o bom “todo” oferecido. “Todo”, que ganhou ainda mais força ante a “revelação” de que aquilo tudo e aqueles trejeitos fáceis e ágeis do velho garimpeiro carregavam a tal surpresa a mais – que, ao final, caiu em nossos colos como aquele presente bom, ou uma revelação inesperadamente instigante.

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