Terras:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Maya Da-Rin
Elenco: Documentário.
Duração: 75 min.
Estréia: 24/09/2010
Ano: 2009


Opiniões críticas controversas.


Autor: Cid Nader

Documentário raro esse de Maya Da-Rin. Para um primeiro trabalho no formato longa há um excesso de pontos e observação perseguidos e executados bastante consistentes quando constados transformados em filme. Vi um monte de gente falando muito mal dele após a sessão em que o assisti – acho, ou que estou ficando muito mole, ou que nado em outra dimensão de compreensão dos filmes que tenho visto.

A diretora foi à fronteira tríplice, que separa (ou une) Peru, Colômbia e Brasil, fixando-se, quando em terra firme, principalmente nas cidades urbanizadas de Letícia, na Colômbia, e Tabatinga, Brasil. Por diversos momentos embrenhou a mata, e por conta dessa mistura de aspectos físicos, aditados pelos momentos no rio que banha fartamente a região, conseguiu criar uma unidade razoável, um campo de trânsito e identificação, por onde trafegaram as imagens e obtidos. O interessante – que me fez perceber no trabalho algo de força e boa esperteza – é que tal momento de unidade, não significa de modo algum, avaliação ou imposição de juízo ao amontoado de situações colhidas, de depoimentos obtidos. Justamente algo que fortifica e identifica de forma única o documentário: o fato de não buscar o foco único, de permitir a dispersão, de ajuntar, somente em edição, opiniões e realidades.

A região é de pluralidade, é de conformação étnica das mais variadas – há diversas etnias indígenas, há povos castelhanos, há figuras de traços incas, há brasileiros com cara de nordestinos e de nortistas -, e de constituição geográfica única (mata amazônica), mas com invasão urbana importante e impactante. Maya, como boa novata – ou como sábia conhecedora do que desejava -, deixou espaço para que as lentes observassem a região em sua discrepância, e deixou mais espaço para que os depoimentos formassem e evidenciassem as opiniões de cada um. Em nenhum momento tenta impor interferência, e isso resulta um aglomerado que tenderia a evidenciar as diferenças étnicas que compõem o povo de lá.

Não que as diferenças não tenham ficado bem perceptíveis – obviamente que elas estão por lá -, mas há um discurso de teor quase utópico, que faz entender que fronteiras e instituições oficiais são coisas raramente bem vistas. De diversos pontos de emanação – um taxista que questiona a razão de imposições numa cidade que se mistura de forma quase sem “fronteiras” visíveis, ou uma índia co discurso engajado e inteligência pra lá de sagaz (nota-se que ele forma lógica e imagina instantaneamente “verdades” e “ditames” que pareceriam seculares em sua cabeça), por exemplo -, de diversas imersões com a câmera, de um apanhado geral da região e das pessoas, percebe-se que há desejos que convergem em favor de liberdade, de não cerceamento burocrático, de não formação de terras por papéis e leis.

As riquezas do trabalho da diretora residem no bom modo de filmar, na atenção nos detalhes, e, principalmente pelo “desfoque” de qualquer centro obrigatório. A riqueza principal está nesse sentido da diretora em deixar fluir – fato que acarretou na arrecadação de importâncias e relevâncias humanas. Somente fraqueja no final, quando, justamente, resolve fazer focos em alguns rostos, diferenciando o que, pelo decorrer do trabalho, havia ganhado unidade pelos discursos, mesmo constatando-se que são povos e lugares únicos em si.

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