Cildo:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gustavo Rosa de Moura
Elenco: Documentário.
Duração: 78 min.
Estréia: 24/09/2010
Ano: 2009


Fluido


Autor: Cid Nader

“A minha arte, é arte de alta definição, e acho isso interessante na hora em que alguém vai escrever sobre alguma obra minha: isso obriga que ele realmente tenha compreendido o que ela significa”. Com essas palavras, lá por um determinado trecho desse documentário que o elucida um pouco, o artista conceitual, Cildo Meirelles, consegue fazer ver aos mais desavisados, que compreender a arte conceitual exige, de quem se atreva a fazê-lo via análises exteriorizadas, entender a “construção física do objeto analisado”, quase que dispensando definitivamente possíveis sub-leituras dele. Cildo percebe que a arte mais geral, de “baixa definição”, possibilita o surgimento de análises que por vezes fogem demais da idéia inicial do artista, por conta da possibilidade que abre a outros tipos de observação – ele, percebe-se claramente nesse momento do filme, talvez desdenhe ou desacredite na capacidade de muitos críticos (até com razão, diga-s de passagem), mas com bom humor ressalta que bons textos, poéticos textos, divagadores com qualidade, também surgem dessa colocação do crítico ante o que será criticado.

Esse trecho do filme é um aspecto interessante – dentre muitos que o diretor Gustavo Rocha consegue durante o percurso do trabalho na tela - que faz entender, a quantos não consigam sobre o estilo de arte exercido pelo artista, um pouco mais a contento as “intenções” por trás desse modo de confecção, que tem muita importância, também, na execução física, na disposição atlética de criadores e assistentes (sempre necessários, aos montes na hora das montagens em exposições). A clareza que vai sendo obtida pelo documentarista é o fator principal de qualidade a ser notada no documentário. Com muita calma, sem atropelos, quase didática/linearmente, Rocha incia seu trabalho com depoimentos inequívocos do artista plástico, que fazem entender perfeitamente sua opção de vida. Quando revela uma história de infância – que envolve um andarilho e sua mãe -, ou quando intromete no trabalho imagens do primeiro homem na lua, o diretor consegue “arrancar” as razões que fizeram seu retratado optar pela arte (uma arte bastante física, também, repito, além da essência que parte da busca do belo ou do diferente, inerente a essa manifestação basicamente humana): isso serve como belo exemplo de didatismo em trabalhos documentais (no caso daqueles que contam a vida de alguém, com certeza necessário), mas sem a chatice como possível companheira.

O andamento do longa é bastante reverente ao estilo de ser de Cildo, que se vê possibilitado de emitir opiniões – o suficiente para que consigamos ao menos imaginar que descobrimos muito de seu caráter -, mas também dinâmico (e não é necessário entender dinâmica como velocidade acelerada, senão como modo de alternar ritmos conforme a necessidade exige - “cria-se dinâmica própria e apropriada”): não oprime com informações de teor pessoal sem razão. É evidente trabalho de apresentação de artista e obra, sem contrapontos ou opiniões contrárias – como já afirmei isso em textos de outros trabalhos, uma opção possível, compreensível, dentro das possibilidades que trabalhos documentais oferecem -, mas bastante correto no modo de apresentá-lo. Elucida quem é ele, tanto quanto elucida um bocado sobre seu modo de trabalho artístico.

Reconstitui bem momentos da vida do “artista” Cildo, quando possibilita a visão, avaliação e explicação por parte dele, de variadas obras importantes, e em diversos momentos. Esse resgate de imagens de exposições (também de trechos de um filme da década de setenta sobre ele, e um disco criado por ele remontando a assunto de sua infância), perfazem bem (e em boa proporção) outro bom caminho necessário a documentários. Ao final, nota-se que tudo passou rápido e facilmente – sempre ponto positivo, isso – ante nossos olhos, e, principalmente, que a edição criou um trabalho bastante “orgânico” ao modo de Cildo criar, vive e pensar.

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