O Pecado de Hadewijch:


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Original: Hadewijch
País: França
Direção: Bruno Dumont
Elenco: Julie Sokolowski, Yassine Salime e David Dewaele.
Duração: 104 min.
Estréia: 17/09/2010
Ano: 2009


Tortuoso, irregular ou suspeito?


Autor: Cesar Zamberlan

Com seus dois primeiros filmes, “A Vida de Jesus”, de 1997, e “Humanidade”, este último Grande Prêmio do Júri em Cannes em 1999, Bruno Dumont alcançou o céu. Foi apontado como a maior revelação do cinema francês e seus filmes comparados ao genial Robert Bresson. E não havia nenhum exagero nisso. Os dois filmes eram - e são -, sem dúvida, obras-primas incontestes e a comparação com Bresson perfeitamente cabível pela forma rigorosa e seca da narrativa, construída em longos e silenciosos planos fixos, e pela temática, na qual o vazio, a condição humana e a religiosidade ou falta dela permeavam cada fotograma.

Mas, depois vieram “Twenty Nine-Palms”, de 2003, sequer lançado por aqui, e “Flandres”, de 2006, que passou na Mostra sem causar muito entusiasmo. E aquele que parecia o grande nome do cinema francês caiu num ostracismo cinematográfico.

Agora, Dumont reaparece com seu quinto filme Hadewijch. Sem ter visto seus dois filmes anteriores e sem me orientar pelos comentários que colegas fizeram destes filmes, quase todos muito negativos, minha análise de Hadewijch ficará restrita à pesada comparação com os dois primeiros. E, desta forma, tendo-os como parâmetro, não há como não esconder certa decepção.

Diferente dos outros filmes construídos na ausência da ação, no silêncio revelador de cada plano, Hadewijch traz um cineasta com uma proposta estética menos pura. Proposta que se é mais palatável para aqueles que achavam o seu cinema tedioso, elimina marcas que o fizeram um cineasta diferenciado. Embora, aqui e ali, sobreviva algum registro isolado mais próximo dos quadros estáticos dos primeiros filmes, a urgência de construir uma narrativa aparentemente mais complexa se sobrepõe. Até aí, tudo bem, mas o problema é que Dumont não dá conta dessa tentativa de complexidade, o que torna Hadewijch um filme bastante problemático na sua construção narrativa, nada orgânica, com situações pouco claras ou de motivação pouco justificável.

O filme apresenta algo comum ao universo de Dumont: a fé e a situação do homem sem Deus, entre a Sua ausência e presença, invisibilidade que vai se configurar para os personagens uma prova maior de religiosidade, no limite do fanatismo. A personagem título, a noviça Hadewijch é expulsa do convento pelo seu extremo misticismo, e é obrigada pela madre superiora a conviver com a vida exterior, com o mundo, para assim testar a sua vocação. Solta no mundo, nas ruas de Paris, Hadewijch, agora Celine, acaba por encontrar dois irmãos quem a querem de maneiras distintas: o amor de Yassin e a fé, próxima a sua, de Nassir. Ao encontrá-los, Celine confronta amor e fé, cristianismo e islamismo; confronta características de ambos e, parece encontrar nessa oposição, paradoxalmente, muitas similaridades.

Mas, aquilo que podia atormentar ainda mais a garota, ou abri-la para o mundo, leva-a a agir e, sem quer estragar a surpresa de quem verá o filme, é justamente aí, que se rompe uma engrenagem que tão bem funcionava nos filmes anteriores de Dumont e até mesmo em alguns momentos deste, ou seja, os personagens deixam de ser, para viver àquilo que o filme quer que eles vivam. Essas ações, na linha de um deus ex-machina, atropelam a dinâmica do filme, e extrapolam a suspensão voluntária da descrença, para usar um termo da literatura, no “contrato” do espectador com a obra. O filme acelera questões, não as explicas, não as sente e se atropela.

Ainda que nas cenas finais, Dumont consiga atar pontas soltas no roteiro e reencontre elementos imagéticos típicos do seu cinema, e o de Bresson - a citação óbvia é “Mouchette” - , o caminho que o leva até lá é tortuoso e irregular demais, para não dizer, suspeito.

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