KING KONG:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Peter Jackson
Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Andy Serkis, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Jamie Bell e Kyle Chandler.
Duração: 188
Estréia: 16/12/2005
Ano: 2005


King Kong: Horas Mágicas


Autor: Fábio Yamaji

Tem filme que não vale o ingresso. Este aqui vale dois. “King Kong” me impressionou tanto que, no meio do filme, achei que deveria sair pra pagar outra entrada, pois o espetáculo proporcionado até então já havia superado minhas expectativas. Seria justíssimo. Daí lembrei que estava numa cabine de imprensa da UIP (a distribuidora do filme), e teria que ser revistado novamente ao voltar pra sala (toda a imprensa foi proibida de entrar com celulares e câmeras, mostrar o conteúdo das bolsas e ser revistada com detectores de metal. Ridícula e constrangedora medida pra evitar possível – e remotíssimo – ato de pirataria. Triste paranóia...).

“King Kong” é bastante fiel ao clássico homônimo em que foi baseado. Com quase o dobro do tempo do filme de 1933, ganha em dramaticidade, humor e ação. A construção de cada personagem é mais elaborada, fortalecendo suas motivações e sustentando seus atos. Afinal, não é bolinho fazer crível a relação de uma mulher - a atriz Ann Darrow (Naomi Watts), desempregada em Nova York – com um gorila gigante, último de sua espécie e habitante de uma pré-histórica ilha isolada. Este capricho se estende também ao implacável diretor Carl Denham (Jack Black), obcecado pelo sucesso (e impacto) de seu novo filme e o sensível dramaturgo Jack Driscoll (Adrien Brody), que entra de gaiato no navio e se vê na posição de salvador da pátria. Esta obra-prima de Peter Jackson trata sobretudo do sentimento de solidão, da oportunidade de dela sair e a luta pra preservar uma relação afetuosa. Isso tudo registrado em situações extremadas de ameaça à vida e à liberdade, que geram seqüências espetaculares de ação e, porque não, cenas do mais puro lirismo (aliás, que cena é aquela!).

Num ano privilegiado para filmes tecnicamente bem sucedidos – “Episódio III”, “Batman Begins”, “O Aviador”, “Sin City”, “Guerra dos Mundos”, “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, “A Noiva-Cadáver”, “Harry Potter e o Cálice de Fogo” e, vá lá, “As Crônicas de Nárnia” – “King Kong” é rei. A expressividade e o realismo do macacão digital impressionam, tanto que simplesmente esquecemos que o que está ali não está ali. O bicho se irrita, se diverte, sente dor, fica em dúvida, pensativo, preocupado e apaixonado. Faz até cu doce. Não deixa nada a dever a 90% dos atores de carne e osso do primeiro time de Hollywood. Mérito, em boa parte, do ator Andy Serkis, que forneceu o acting para a criatura digital e trabalhou com o elenco do filme no set, como referencial para a presença do gorila.

Outro aspecto técnico que salta aos olhos – e este sim uma novidade – é o enquadramento nas cenas de luta. Jackson fixa a câmera no rosto de Kong, na mão de Kong que segura Ann ou em qualquer outro ponto no meio da ação, e segura o enquadramento enquanto a porrada corre solta. Algo inconcebível numa filmagem convencional. O efeito é alucinante e eficiente, uma ousadia bem sucedida. Criativamente, aproxima Jackson de Spielberg – mestre em set up (posicionamento da câmera) e decupagem (organização dos planos filmados) – e, quem diria, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne – Palma de Ouro em Cannes por “Rosetta” e “O Filho” – que se notabilizaram por filmar, com a câmera na mão, muito próximo do rosto de seus atores.

O fotógrafo Andrew Lesnie mostra a que veio em duas cenas de amor-platônico entre Kong e Ann, quando retrata em “hora mágica” as seqüências em que o filme dá uma respirada e foca momentos muito íntimos na relação afetuosa do par. Beautiful. (Existe um momento do dia, logo após o pôr-do-sol, em que a luz solar ainda não desapareceu de todo e o negativo cinematográfico ainda tem sensibilidade suficiente para captar as imagens; e que é usado para filmar de dia, com luz natural, criando um efeito noturno. Esse momento muito curto do dia é chamado em cinema pelo apelido técnico de "hora mágica").

Outra contribuição valiosa de Lesnie está na retratação do visual fake de cenas filmadas em back projection, como se fazia nas primeiras décadas do Cinema, prestando assim uma homenagem ao “King Kong” original (que ainda ganha outras referências) e ligando diretamente à época em que se passa o filme. Uma sacada esperta, já que agora, na era da composição digital, as filmagens também são feitas em estúdio; mas com um fundo verde no lugar da tela branca onde se projetava as imagens pré-filmadas. É o mesmo princípio de dois momentos opostos dos efeitos especiais.

Um dado curioso sobre a trilha sonora: Howard Shore, que musicou a trilogia “O Senhor dos Anéis” e com ela ganhou dois Oscars, foi despedido pelo diretor, que não gostou de sua música para “King Kong”. James Newton Howard foi chamado às pressas pra compor uma nova trilha, em apenas duas semanas. O resultado foi excelente, e seu nome já figura nas listas de prêmios da categoria. Com um tema forte de ação - alinhado à música de Max Steiner para o “Kong” de 1933 - e um belo e delicado tema para as cenas emocionais - com melodia parecida com a que fez para “A Vila”, Newton Howard tem grandes chances neste ano. Mas mesmo assim Howard Shore participa do filme. Ele faz uma ponta como o maestro que conduz a orquestra no grande show de Carl Denham.

“King Kong” de Peter Jackson já está na minha lista de melhores filmes do ano, e estou certo de que será um fenômeno de bilheteria (e pirataria). Mesmo que os espectadores paguem somente um ingresso simples (ou adquiram uma cópia do filme no camelô mais próximo).

* A definição de “hora mágica” foi extraída do site do filme “A Hora Mágica”, de Guilherme de Almeida Prado.
Leia também:


"King Kong" - e os dinossauros de milhões de dólares