O Refúgio:


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Original: Le Refuge
País: França
Direção: François Ozon
Elenco: Isabelle Carré, Louis-Ronan Choisy, Pierre Louis-Calixte, Melvil Poupaud.
Duração: 82 min.
Estréia: 10/09/2010
Ano: 2009


Ozon "adultecido", plácido e profundo.


Autor: Cid Nader

François Ozon que iniciou a carreira tentando a mais do que poderia entregar por sua juventude – nos primeiros filmes tocava em temas complexos e tentava carregar na importância do discutido pesando a mão na técnica e com possibilidades narrativas mais instigantes (porém, complicadas por fazerem paralelismo com tendências e modismos descartáveis) -, parece que anda mais acomodado, no caso, para o bem. Nunca desfaço das ousadias e tentativas, mesmo por diretores iniciantes, mas o drama dele é que o fato de querer incomodar o público vinha muito mais por intervenções mecânicas desnecessárias (saturações, câmeras “desleixadas”, abuso no modo das atuações...) e por cópia de temáticas que, com o tempo, revelaram-se muletas bobas (disfuncionalidade, seres à parte da sociedade mas com bom tino para pertencerem a um mundo moderninho e de diálogo “espertinho” com as lentes, violências gratuitas...). Como disse, para o bem, parece que “adulteceu” de modo convincente e inesperado, repetindo e repisando algo que fazia perceptível razoabilidade nos temas que abordava.

Ozon percebeu que falar de modos de amar, e falar das mulheres (mais especificamente de comportamentos femininos, de traços determinantes extraídos das reações fêmeas – mesmo quando trata da questão homossexual masculina, fato também recorrente) era muito sua praia, e que utilizar as técnicas da moda poderia ser dispensado com a confiança adquirida pelo passar dos anos. Muito por conta dessa confiança, a uma olha mais superficial pode-se até dizer que seu cinema perdeu potência nos últimos trabalhos: o que seria uma avaliação recheada de bobagens. Quando O Refúgio inicia ostentando uma viagem alucinógena que parece não resultará coisa boa para o casal envolvido pensa-se que todo o porvir do filme será de complexa avaliação, de pesado acompanhamento, de sangue correndo nos olhos. Mesmo nesse início, mesmo “passeando” por uma bad trip, é fácil notar que o diretor está muito mais seguro de seus domínios, pois, paralelamente ao tema referido, o modo de conduzir os fatos é contido, seguro, correto, nada ostentoso.

Mais ainda à frente enquanto avança, com situações fortes já determinadas e caminhos novos a serem percorridos pelos personagens que permanecem num primeiro plano da trama (a jovem Mousse e seu cunhado), o filme se estabelece de modo absolutamente plácido – dentro dessa nova tendência de Ozon -, e as situações revelam-se observadas por um olhar estético bastante correto e bonito (o diretor sabe compor situações cenográficas e trabalhar cores e luz como poucos), que está longe de ser somente parte pictórica superficial no trabalho. Há uma evidente prevalência de claro-escuro (quase que branco contra pretos – pretos bastante bem especificados) determinando os momentos na tela, numa referência visual evidente ao que se passa nos espíritos dos personagens. O filme, por essa ótica somente reforça as suaves discussões que a histórias propõe, fazendo um caminho que deixa muito nítido o quanto o discutido pode ser encarado tão simples dentro de uma profundidade quase profunda na formação da consciência humana. São discutidos – nunca de forma oratória ostensiva – os destinos humanos (as opções, as responsabilidades sobre uma nova vida que virá à luz, o determinismo do passado familiar, os desejos, a importância e as matizes que eles podem tomar).

O que se delineia enquanto o filme avança placidamente em direção de sua solução, pode até incomodar aos menos atentos por conta de parecer discussão frágil sobre temas importantes, que brotam de um início com boa carga de impacto: e é justamente aí que reside o grande pulo do diretor, que percebeu como pode tratar dos assuntos que são fatos palpáveis em seus interesses, sem ações factóides, com bom manuseio de ferramentas cinematográficas, com “falsa” calma. Ademais, o finalzinho mesmo, surpreendente, impactante, faz notar que François Ozon não abordará histórias somente de modo “superficialmente” bem filmado. Belo trabalho plácido-profundo.

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