5 Vezes Favela - Agora Por Nós Mesmos:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cacau Amaral, Cadu Barcelos, Luciana Bezerra, Manaira Carneiro, Rodrigo Felha, Wagner Novais, Lucian
Elenco: João Carlos Artigos, Flavio Bauraqui, Zózimo Bulbul, Vitor Carvalho, Hugo Carvana, Samuel de Assis.
Duração: 96 min.
Estréia: 27/08/2010
Ano: 2010


Inevitáveis erros e acertos.


Autor: Cid Nader

Cacá Diegues sugeriu uma refilmagem de “5x Favela”. Resolveu produzir a empreitada e fez com que ela – ao contrário da primeira “versão” – viesse pela novidade de ser confeccionada por gente que realmente mora ou morou nessa verdadeira instituição nacional, com destaque pitoresco para as do Rio de Janeiro, ao contrário da observação via classe média O resultado que constatei ontem é muito acima do que esperaria a princípio. Os episódios (com exceção do “Concerto Para Violino”, dirigido por Luciano Vidigal) ganharam muitos pontos para si por conta da proposta dos diretores em não fugir da realidade que faz da violência a coisa mais marcante dessas comunidades carioca, sim, mas apostando no humor, ou num futuro ao alcance, e na intenção de “que a vida deve continuar”, como os principais motes condutores de seus trabalhos.

O problema de “Concerto Para Violino” foi a aposta melodramática exacerbada demais executada em sua trama, fazendo com que climas de violência e situações limite de falta de perspectiva se estabelecessem como destino trágico e sem possibilidade de fuga para os moradores de lá. O filme transcorre no embate polícia corrupta e traficantes, contra o povo, antepondo, como se fosse literatura, três amigos de infância, e destinando a eles o papel de ícones do povo que sofre por tais situações. É piegas nos momentos de “branco” imposto à garota que toca violino, além de gratuitamente violento com insinuações de mortes. Mas tem um final que corrige um pouco desse apego ao melodrama irrecorrível.

Os outros episódios têm apostas mais bacanas, com bastante vazão para a vida que deve correr e humor até espetacular. O humor espetacular que cito ficou por conta do desfecho do leve e tremendamente bem atuado “Arroz com Feijão” (Rodrigo Felha e Cacau Amaral), onde dois moleques resolvem que devem comprar um frango para que o pai de um deles tenha oportunidade de comer carne. O jeito dos moleques, a maneira que a câmera os acompanha, as situações inventadas e, o final inusitado, fizeram com que o episódio fosse o que mais leva o filme ao Rio das favelas imaginárias como cartão postal de nossa malemolência. Ah: Ruy Guerra trabalha como ator nesse episódio.

Tenso e bonito – e usando bom humor quando situação de embate físico se insinua -, “Deixa Voar” (Cadu Barcelos) revela que mesmo originários das mesmas estirpes humanas, e da mesma pobreza, uma ponte pode fazer com que diferenças pareçam irreconciliáveis. Aposta na tradição das guerras de pipas e inventa um final amoroso bastante bonito e ingênuo. Talvez seja o trabalho que demonstra visualmente mais a pobreza e crueza das ruas desses locais.

Também é dramático “Fonte de Renda” (Manaíra Carneiro e Wagner Morais), mas é um dramático bem vincado na realidade, e que aposta na tentativa forte da fuga do inevitável que seria a imersão na criminalidade. O segundo menos bom da sessão, mas de ritmo bem criado pela boa execução na montagem. Mostra a realidade de um jovem que quer crescer na vida, indo estudar direito, e de como a burguesia talvez seja a maior incentivadora dos crimes e da criminalidade gerada pelas drogas. Tem solução boa: talvez um final que pudesse ter se atido no tempo em que a história transcorre, sem o salto ao futuro (o que não compromete demais, na verdade).

E o fechamento se dá com um filme leve e de caráter que faz imaginar a favela como uma região apropriada aos turistas que queiram ver bondade e delicadeza em seu povo. É divertido ao modo picaresco – meio novelesco, e é muito bom pela opção estética que é a de filmar a região sem luz na véspera de Natal: o que promove a possibilidade de final com um belo momento fotográfico, onde, à distância vê-se um trecho iluminado no meio do morro escurecido.

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