Antes que o Mundo Acabe:


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Original: Iderm
País: Brasil
Direção: Ana Luiza Azevedo
Elenco: Pedro Tergolina, Eduardo Cardoso e Caroline Guedes.
Duração: 102 min.
Estréia: 20/08/2010
Ano: 2009




Autor: Cid Nader

Acho importante começar dizendo que Antes que O Mundo Acabe apareceu numa sequência em que diversas produções brasileiras falando do mundo adolescente estouraram nas nossas telas. Importante, porque surgido num momento em que aparentemente o tema virava alvo de cooptação, era fácil ir às salas já com o nariz torcido e expectativa baixa. Falar desse momento pilar da vida humana - dramático e extremado, de onde resultarão definições irretornáveis, e muito mais importante do que pensá-lo pejorativamente como tempo das aborrecências - requer traquejo e muita compreensão do que significa repassar tal período para alguma arte que venha a ser visitada por apreciadores distantes (podem ser espectadores de cinema, leitores...). Ana Luiza Azevedo não é diretora iniciante e carrega em sua bagagem uma verdadeira obra-prima (em co-direção com Jorge Furtado), que é o curta "Barbosa". Também bastante atuante e influente num momento em que a produção de cinema gaúcho ganhou importância (diria que reconhecimento, mas com vícios que marcaram e estigmatizaram demais), com a “Casa do Cinema”.

Dito isso, parto para uma confissão: havia visto Antes que O Mundo Acabe já há muito tempo, numa cabine, e saí com dúvidas suficientes embutidas na cabeça, para acabar impedindo (fato raro em mim) que eu fizesse uma crítica dele. À época, o que imaginei como defeitos (principalmente algo que remetia ao vício citado, e que mais especificamente referia a modelos executados, copiando o modelo de sacadinhas espertas e “rodantes” iniciado com o curta “Ilhas das Flores”, em 1989), me impediram de talvez perceber o quanto a singeleza sugerida no trato dedicado aos adolescentes protagonistas tinha de força e cinema, para talvez relevar a algo próximo da insignificância aquilo que, a princípio, me parecia “uma besta enorme e aterrorizante”.

Já confessado, com o filme finalmente revisto, creio que me parece quase impossível entender os defeitos (que na minha cabeça remetiam a imitação servindo de muleta) que o filme teria como algo capaz de superar o bom trato que Ana Luiza dedica a cada frame, a cada passo, a cada pedalada dos três adolescentes que circulam quase onipresentes pela tela. Ela tem total consciência dos meandros e complexidades que assustam, tanto quanto empurram para a frente os seus moleques. Cria um mundo cheio de significados que falam por e para eles: há a história do surgimento da primeira paixão, da primeira desilusão, do primeiro porre causado pela sensação de perda, da primeira tomada obrigatória de atitude de calibre adulto para a tentativa de resolução de um problema bem cabeludo acontecido na escola, ao mesmo tempo em que não deixa de mostrar as indecisões, os erros de opções, os medos: consegue transmitir em filme um bocado dos meandros melindrosos que desenham esse momento da vida.

Tal compreensão e concretização, na maneira do cinema, dessas questões já seria suficiente para percebermos ter assistido a um filme bem digno. Excetuando um certo exagero na confecção da figura do “padrasto bacana” (sempre metido na cozinha como se a vida não existisse para além disso), e algo que se aproxima do exagero maniqueísta que é direcionado e determinado por atitudes e caras de um padre e uma freira, não dá para não pensar com extremo compreensão e carinho na figura da irmã mais nova (com falas e atitudes tremendamente boas) e suas coisas - que acabam cumprindo uma função descentralizadora, o que ajuda na fluidez da narrativa -, como não dá para evitar a emoção ante a retomada gradual do relacionamento entre o pai fotógrafo e o filho, que vem bastante sustentada pelo uso de fotos fixas e por conversas “escritas” que vão ganhando sinal de desvendamentos e descobertas, aos poucos. Afora, que os momentos filmados das bicicletas nas ruas revelam um conhecimento de "quadro" e confecção em movimento bastante acima do comum. Uma grata re-surpresa.

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