Cabeça a Prêmio:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marco Ricca
Elenco: Alice Braga, Daniel Hendler, César Trancoso e Eduardo Moscovis.
Duração: 106 min.
Estréia: 20/08/2010
Ano: 2009


Início com pequena queda para tentações.


Autor: Cid Nader

Duas coisas a se dizer inicialmente a respeito desse primeiro filme sob direção do ex-ator (?) Marco Ricca: ele com certeza (com certeza, imagino eu, evidentemente) utiliza duas referências de diretores como modo de sustentação - algo compreensível - a quem está iniciando, que seriam, o brasileiro Beto Brandt (coisa evidente e compreensível por sua ligação ao diretor paulistano em alguns de seus trabalhos), e a argentina Lucrecia Martel (coisa que se nota na história da família decadente em seu complexo relacionamento, bastante evidenciada na cena em que a mãe entra na piscina bêbada e desconsolada com o futuro da família; e numa cena bem mais singela, onde a mão da personagem vivida por Alice Braga, depositada sutilmente sobre o vidro de um ônibus, faz lembrar o momento em que uma ou duas crianças passeiam alegremente, brincando com suas mãos sobre uma grade - nota-se, principalmente, a luz incidindo no mesmo tipo de angulação).

No caso das referências, vale lembrar que Ricca não foi tão a fundo e de forma tão dependente quanto Selton Mello em seu filme de estréia (como diretor), “Feliz Natal”: onde se percebeu um diretor extremamente estudioso, reverente, mas que não conseguiu obter encadeamento necessário para que a trama ganhasse unidade fílmica. Ricca foi bem mais sutil, mas foi, também. Já no caso da “segurança no trabalho” – onde se nota a “esperteza” do diretor em não naufragar por excesso de tentativas com materiais em experimentação – residem, o mérito que o filme tem, e os seus grandes problemas.

A história, que fala de riqueza meio espúria – alude sem dedos à riqueza por vias campesinas a outras de teor bem mais explicitamente irregular (contrabando e tal) -, nos apresenta um Fúlvio Stefnini bastante seguro, com grande atuação e dono dos seus momentos. Antes, aproveitando, vale dizer que o “setor” interpretação vai quase todo muito bem, parecendo um fato quase lógico quando se lembra da extensa carreira do diretor como grande ator (Alice Braga tranquila, Eduardo Moscovis compondo um personagem difícil e bem concretizado em sua quietude interior – com momentos de arroubo sexual causando um contraponto bem interessante -, e Cássio Gabus Mendes como ele mesmo: o que significa empatia natural, mas não necessariamente boa composição). Ao situar a história num campo de vingança e violência, o diretor encontrou vias fáceis de caminhada – com inúmeros exemplos na história do cinema. Atitude sagaz, que evitou fiascos formalistas, que revelou boa capacidade de filmagem e edição, e que tranquilizou a maneira de compreensão do que estava sendo narrado.

Porém, tal sagacidade, também, acabou por revelar muitos momentos de conformismo narrativo, impedindo que a participação do público extrapolasse a compreensão mastigada e se, sustos estéticos, o que significa que uma obra muito mastigada demais estava acabando de ser constatada. É difícil criticar de forma fortemente negativa um filme que caminha tão seguro, à primeira vista, mas é necessário se pensar em cobrar desde cedo (afinal, não é de criança que se torce o pepino?), para que tal situação seja compreendida como “primeiros passos calculados”. Pelo bem e pelo mal, o filme caminha e não dá sustos canhestros até a cena final, que por muito pouco não afunda todas as intenções, por uma atitude desastrada e desnecessária – que é brecada a tempo, e não sucumbe à tentação de se fazer “esperta” via som, ruído, já com a tela escura.


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