VOCAÇÃO DO PODER:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eduardo Escorel e José Joffily
Elenco: Documentário
Duração: 110
Estréia: 09/12/2005
Ano: 2005


"Vocação do Poder" - o desejo do poder


Autor: Cid Nader

Há documentários e documentários. Existem os documentaristas que investem nas câmeras e microfones como aparelhos intimidatórios e de inquisição, e existe o documentarista invisível, que faz om papel do companheiro bom de papo e que, num passe de mágica - sim deve ser mágico, você acredita em invisibilidade a não ser como truque? - transforma sua câmera e seu microfone em acessórios simpáticos e relaxantes como, por exemplo, uma mesa de bar e um geladíssima cerveja - apropriadíssimos para um bom e revelador bate-papo.

Mas, hoje não é dia de falar do mágico/gênio/invisível. É dia de falar dos comuns, dos normais, no caso aqui representados pelas figuras de José Joffily e de Eduardo Escorel. A dupla teve as idéia de construir um documentário, usando como idéia central e condutora o acompanhamento de seis candidatos à vereança da cidade do Rio de Janeiro, nas eleições de 2004 - a idéia já havia surgido para o pleito de 2000, mas os recursos não foram suficientes. Criaram algumas regras, como a de utilizar candidatos que concorriam pela primeira vez e que fossem, de preferência, jovens. Tais regras procuravam legitimar e dar valia ao título do trabalho, "Vocação do Poder", e sua busca da real razão que move jovens na direção do complicado mundo da política.

Escorel e Joffily demonstraram - com a obra concluída - razoável inabilidade, no momento em que usam seus apetrechos tecnológicos de maneira a direcionar o documentário para um formato muito parecido ao de um telejornal, onde os "artistas" falam com - e olham para - as câmeras, quando o ideal seria "arrancar" sinceridade deles, com falas e olhares direcionados a nós, espectadores. Questão de sutilezas, mas absolutamente notável.

Inabilidade, também, pela relutância em mudar o foco - literalmente - quando as oportunidades se apresentaram. Houve momentos em que o entorno, as pessoas, enriqueceriam o filme se "captadas" por mais tempo, o que se daria pelo simples movimento lateral da câmera, que teimosamente força o foco em algum dos candidatos, como se tivesse medo perdê-los de vista.

Mas, apesar dos pesares, o resultado da empreitada acaba por ser satisfatório, já que a "perseguição" aos pleiteantes por todos os cantos da cidade maravilhosa, revela-a mais humana/carente/desigual, menos idealizada/maravilhosa. Fica nítida a diferença de comportamento quando, em regiões mais pobres e desprovidas, os candidatos conseguem mais a atenção da população, que mais carente e necessitada pede "ajudas" - pequenas e grandes, pessoais e pela comunidade - em troca do voto, enquanto que, na zona sul, dos ricos e "bem", prevalecia o desespero dos aspirantes políticos na tentativa - quase sempre frustrada - de entregar ao menos um "santinho".

Se considerarmos função dos documentários revelar fenômenos sociais aos mais "desavisados", ponto para "Vocação do Poder". Ele evidencia essa dependência secular dos menos favorecidos pela instituição, pelos "favores" do Estado. Dependência arquitetada por uma estrutura engendrada pelos poderosos - desde o tempo do Brasil Colônia - e donos do dinheiro, que dificulta ao máximo a transferência de "bens" para mãos mais "sujas", menos brancas, passando a impressão de que, somente através das "benesses" oferecidas pelos "salvadores" políticos, o ato da tentativa de sobrevivência pode ser continuado.

Ter o poder, agir como Deus, talvez seja o melhor motivo para explicar a tal da vocação para o poder.
Leia também: