Os Mercenários:


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Original: The Expandables
País: EUA
Direção: Silvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone , Jason Statham , Jet Li e Dolph Lundgren.
Duração: 104 min.
Estréia: 13/08/2010
Ano: 2010


Renegados de Hollywood resgatam a ação com testosterona


Autor: Fernando Oriente

Tipos estranhos ao padrão hollywoodiano contemporâneo, dinossauros de uma época recente em que tudo se resolvia com balas, porradas e explosões, estão no centro da ação frenética que embala Os Mercenários. O longa, cheio dos lugares comuns das aventuras dos anos 80 e contaminado por um sentimento de masculinidade exacerbada, é dirigido e estrelado por Sylvester Stallone. Isso em si já é um tradutor do que o filme representa e reserva para o espectador.

Stallone foi forjado nos anos 70, deu vida com seu talento duvidoso e sua canastrice a personagens que representavam o sentimento melancólico dos Estados Unidos daqueles anos, onde o fracasso e a desesperança assolavam paisagens urbanas decadentes. Esse Stallone jovem viveu Rocky e John Rambo em suas primeiras aparições nas telas. Carregou os tormentos desses tipos em filmes decentes até o início dos anos 80, quando esses heróis se transformaram em símbolos do neo-fascismo de Ronald Reagan e do maniqueísmo anti-soviético que embalavam aquela década. Passado aquele período, com fim da URSS e a ascensão do liberalismo de mercado ao centro do poder, Stallone e seus antigos parceiros de tela foram renegados ao segundo escalão, quando não ao esquecimento quase total e às produções de quinta categoria. Some-se a tudo isso a idade e as muitas tentativas de intervenções estéticas que mais deformaram seus rostos do que devolveram seus rostos jovens.

O centro atual das produções do mercado hollywoodiano é ocupado pela cafonice de James Cameron e suas preocupações ecológicas caretas e seu romantismo piegas, além de produtos direcionados a adolescentes infantilizados, geralmente baseados em formas e conteúdos de videogames e abarrotados de efeitos especiais computadorizados cujo artificialismo over irrita os olhos. Podemos adicionar ao atual receituário da indústria de sonhos pré-fabricados as aventuras babacas de vampiros assexuados, as comédias românticas assépticas e o pudicismo de dramas pretensamente sérios, que valorizam cada vez mais o individualismo tacanho de uma sociedade egoísta e consumidora de sensações fugazes e prazeres infantilóides.

É em meio a esse cenário que Stallone escala um time de atores egresso dos anos 80, somados a nomes do segundo escalão como Jason Statham (herói de ação na Europa, mas visto com maus olhos pelos produtores de blockbusters dos EUA) e Jet Li (vindo do cinema de ação físico de Hong Kong e coadjuvante em longas americanos) e os conduz a uma aventura alucinada em que resolvem seus desafios da forma que sempre souberam: detonar tudo o que tem pela frente e ainda tirar sarro um dos outros e da (i)realidade que os cercam. Com muito vigor, muito mais do que se podia esperar de um veterano, Stallone carrega “Os Mercenários” com sequências de ação barulhentas e intensa violência gráfica em que o anti-naturalismo das situações ganha força pela boa coreografia e pela fisicalidade dos conflitos e combates. Sangue, vilões mutilados por armas potentes, facas que voam e atravessam corpos e muitas explosões garantem ao espectador um prazer irresponsável, uma sensação de diversão alucinada em que tudo é permitido em nome da emoção e da adrenalina. Para resumir Os Mercenários nada melhor do que o comentário principal que se ouve após a projeção do longa: “filme de macho”!

Problemas existem no longa, e não são poucos. A postura reacionária dos heróis anda de mãos dadas com a arrogância norte-americana e ao desdém como veem os países subdesenvolvidos como antros de pobres coitados dominados pela corrupção e pela tirania, facilmente compráveis por alguns milhões de dólares e cujo destino só pode ser salvos pelas ações dos bravos heróis americanos e seus aliados. Mas essa visão muito crítica permite também desviar a análise de alguns lugares comuns que o filme abusa, mas que servem para aumentar a irresponsabilidade do prazer que se pode ter ao assisti-lo. O maniqueísmo do vilão vivido por Eric Roberts é uma ótima antítese aos clichês que compõem os renegados liderados por Stallone. A composição do roteiro, com sua sucessão frenética de sequências de ação regidas por reviravoltas previsíveis acaba por deixar o espectador mais a vontade, faz com que ele penetre um universo já conhecido e o envolve ainda mais na brincadeira inconseqüente e despretensiosa do filme. Essa honestidade, que sabe de suas limitações, e o caráter tosco são alguns dos segredos do que de melhor tem Os Mercenários e o diferencia dos entretenimentos babacas e bregas que inundam as salas de todo o mundo com suas boas intenções e seu politicamente correto. Outra boa opção de Stallone é abusar de enquadramentos e planos subjetivos, além de tomadas e movimentos de câmera tipicamente presentes nos anos 80, que resgatam a visceralidade cheia de testosterona que habitava esses filmes e conferem texturas físicas à ação e aos conflitos. A edição acaba por ceder um pouco ao estilo frenético dos dias de hoje, em que os excessos de corte e o abuso de planos curtíssimos diluem um pouco o impacto do que se vê. Mas a forma clássica da ação direta acaba por prevalecer e o lado material da violência encontra espaço em meio as modernas técnicas de montagem.

A auto-ironia é um dos pontos chave de Os Mercenários, o que garante sequências inspiradas como o diálogo entre Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger (ambos em participações especiais) em uma igreja, ou mesmo as piadas em relação à baixa estatura de Jet Li. Para completar, temos a presença de Mickey Rourke, no auge do estilo cool que nasce da superação de sua decadência física aliada ao carisma de um ator que já pode ser considerado mítico dentro do cinema norte-americano. Pontos para Stallone e entretenimento garantido para quem não se incomoda em aproveitar um bom e velho filme de macho, sujo, vagabundo e altamente divertido.

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